“Em nosso mundo moderno, conquistamos a liberdade sexual. Agora vem o problema muito mais difícil – a liberação do coração. ” Marie Louise von Franz.

Embora aparentemente o sexo não seja mais tabu, ainda vemos, nos consultórios, inúmeras queixas relacionadas a sexualidade. O mal desempenho para os homens chega a tornar-se caso de depressão, os abusos são uma constante no caso das mulheres, a promiscuidade atinge uma grande parcela de jovens (vemos no filme indicado ao prêmio de Cannes: Love, um arremedo de promiscuidade sexual e drogas onde a questão do coração parece resumir-se ao hedonismo) e a falta de libido está presente numa imensa parcela de casais. O que então podemos dizer sobre a liberdade sexual? Uma liberdade que gerou tantas dúvidas, onde os jovens hoje acreditam que só saberão seu gênero experimentando a sexualidade, como se gênero se resumisse ao ato sexual. Como se a psique não fizesse parte deste corpo, como se não houvesse um relacionamento social e amoroso que me apontasse desde sempre quem sou eu.

A semente da nossa singularidade está presente desde o nosso nascimento, é o projeto do nosso Processo de Individuação. O Self faz despertar nossa consciência a cada dia, ampliada, incorporando o novo, o todo. Conforme o mundo se transforma também nosso Inconsciente Coletivo se amplia porque tudo faz parte dele. Embora não tenhamos consciência de tudo que nos pertence, porque não temos acesso a esse manancial, de muitas maneiras ele se faz presente em nossa vida. Através de atos falhos, sonhos, sincronicidades a vida nos prega inúmeras peças que nos levam ao encontro de nosso destino. O coração desperta para os seres que lhe toca, as almas se reconhecem. Mas nem sempre é fácil, ao contrário. Os relacionamentos são sempre muito difíceis, principalmente nas relações homens e mulheres, porque aí a relação é sempre quadrangular.

Quando mulher, sou eu e meu animus e o homem é ele e sua anima. As projeções se fazem presentes em todas as situações e eu não sei quem é esse homem, o que eu vejo, na grande maioria das vezes, é o meu animus projetado nele e ele se encanta pela sua anima projetada em mim. Assim acontecem os matrimônios, os relacionamentos. E, no nosso mundo ocidental onde tudo é muito efêmero, como bem pontua von Franz em seu livro O Caminho dos Sonhos, os relacionamentos também não suportam o fim das projeções. As pessoas nem tentam conhecer o parceiro, na verdade, hoje, as pessoas não tentam se conhecer também. Assim as relações acabam sem nunca terem começado, porque em verdade nunca se casaram, foi uma ilusão. Se eu não conheci meu parceiro como posso saber se poderia ou não o amar?

Muitas pessoas se surpreendem com relacionamentos longevos. Alguns são acomodações econômicas ou simplesmente medo de sair das zonas de conforto em que vivem e encarar a si mesmos. Mas outros são indivíduos que se conhecem e reconhecem inúmeras vezes ao longo da vida. Projeções são feitas e retiradas inúmeras vezes, porque isso faz parte da natureza humana e é assim que acontecem nas relações, mas é preciso ter consciência disso e retirar as projeções do animus que a mulher faz, identificada com o pai, o amigo, o cuidador, etc… E quanto ao homem retirar as projeções de sua anima, que tanto fascina e encanta, advindas de sua mãe, de sua cuidadora, amiga, princesa, filha, etc… Casais se relacionam encarando o outro com suas imperfeições e aceitando-os apesar e por elas. Não é tarefa fácil, mas ela só é possível através do autoconhecimento. Ninguém pode perceber as projeções que faz no outro se não se conhecer.

Conhecer a psique e conhecer o corpo. A maioria se preocupa apenas em conhecer o corpo. Como não conseguem ter prazer acreditam que precisam conhecer mais seu próprio corpo e do parceiro. Mas muitas vezes o bloqueio não está aí e sim na psique. Qualquer trauma relacionado a questões sexuais pode ficar latente, como um complexo, e interferir em nossa vida sexual. Não será conhecendo o corpo que essa questão será resolvida e sim mergulhando nas profundezas de nosso Inconsciente Pessoal.

Quanto mais afetos estiverem no entorno do trauma mais difícil será tirarmos a energia constelada do complexo. De qualquer maneira é preciso encarar o complexo, reconhecer-lhe o núcleo, seja uma ideia arquetípica, um trauma, uma lembrança dolorosa e ressignificar seu conteúdo. Só assim poderemos nos libertar e libertar o coração e consequentemente a liberdade sexual será o complemento de uma linda história de amor.

Transcrevo os parágrafos 232/233/234 de Civilização em Transição uma das mais belas e esclarecedoras obras de Jung, espero que estas palavras vos ajudem a encontrar o rumo do vosso Significado:

“O amor tem mais do que um ponto em comum com a convicção religiosa: exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento. Pelo fato de isto ser muito difícil, poucos mortais podem orgulhar-se de tê-lo conseguido. Mas, por ser o amor devotado e fiel o mais belo, nunca se deveria procurar o que pode torná-lo fácil. Alguém que se apavora e recua diante da dificuldade do amor é péssimo cavaleiro de sua amada. O amor é como Deus: ambos só se revelam aos seus mais bravos cavaleiros.

Da mesma forma critico o casamento experimental. O simples fato de assumir um casamento experimental significa que existe de antemão uma reserva: a pessoa quer certificar-se, não quer queimar a mão, não quer arriscar nada. Mas com isto se impede a realização de uma verdadeira experiência. Não é possível sentir os terrores do gelo polar na simples leitura de um livro, nem se escala o Himalaia assistindo a um filme.

O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério.  Considero um desacerto falarmos nos dias de hoje da problemática sexual sem vinculá-la ao amor. As duas questões nunca deveriam ser separadas, pois se existe algo como problemática sexual esta só pode ser resolvida pelo amor.  Qualquer outra solução seria um substituto prejudicial. A sexualidade simplesmente experimentada como sexualidade é animalesca. Mas como expressão do amor é santificada. Por isso não perguntamos o que alguém faz, mas como o faz. Se o faz por amor e no espírito do amor, então serve a um Deus; e o que quer que faça não cabe a nós julgá-lo pois está enobrecido. ” Carl Gustav Jung.

(Autora: Dra E. Simone Magaldi)

(Fonte: www.ijep.com.br)

 

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