Compreende-se por medicalização o processo que transforma, artificialmente, questões não médicas em problemas médicos. Problemas de diferentes ordens são apresentados como doenças, transtornos, distúrbios que escamoteiam as grandes questões políticas, sociais, culturais, afetivas que afligem a vida das pessoas.

A sociedade brasileira vive esse processo de medicalização em todas as dimensões da vida, ou seja, uma busca desenfreada por explicações biológicas, fisiológicas e comportamentais – que possam dar conta de diversos tipos de sofrimento psíquico, entre os mais frequentes estão à ansiedade, estresse, depressão, síndrome do pânico, transtorno bipolar e fobias.

A medicalização da vida é uma prática comum, tornou-se corriqueiro ir a uma consulta e sair com uma receita em mãos. Nessa busca por um alívio imediato dos sintomas, constata-se que cada vez mais pessoas colocam sua confiança em receitas rápidas – que possam diminuir o mal-estar sem se preocupar em buscar um sentido para esse sofrimento.

Assim, difunde-se a ideia de que existe um gene que poderia explicar o alcoolismo, as doenças mentais e a infelicidade, fazendo com que hipóteses duvidosas sejam divulgadas pela mídia como fatos comprovados. Isso cumpre o papel de controle social, abafando questionamentos e desconfortos, exercendo a função ainda mais perversa de ocultar violências físicas e psicológicas, transformando – essas pessoas em portadores de distúrbios de comportamento e de aprendizagem.

Além da exacerbada carga medicamentosa prescrita aos adultos, uma constatação ainda mais preocupante que é o aumento da medicalização da infância. Atualmente observa-se que crianças e adolescentes que apresentam características de personalidade que diferem dos catalogados como normais – são frequentemente enquadrados em categorias nosológicas.

Segundo a psicanalista Elisabeth Roudinesco sempre haverá um medicamento a ser receitado, pois cada paciente é tratado como um ser anônimo, pertencente a uma totalidade orgânica. Imerso numa massa em que todos são criados à imagem de um clone, ele vê ser-lhe receitada à mesma gama de medicamentos, seja qual for o seu sintoma.

Distante de contestar a utilidade dessas substâncias químicas e desprezar o conforto que elas trazem, o mais importante é esclarecer que os psicofármacos, quando prescritos – de forma criteriosa e responsável, tornam-se um importante aliado na luta contra o sofrimento humano. Mas de forma alguma se deve restringir o tratamento apenas a uma resposta medicamentosa, portanto, é preciso contextualizar o uso abusivo que se faz de antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos.

 




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