Me pedem o nome completo, CPF, endereço, salário, estado civil, gênero, nacionalidade, senha do cartão de crédito…

Eu falo, eu completo, eu sigo as instruções de acesso, mas não é isso que sou.

Sou o indefinível, o ‘não sei’, o sentido do momento, o amor, o choro, o nervo. A dúvida, o silêncio e as falas soltas ao vento.

Me perguntam minha profissão, posição política, religião, opinião, planos de vida, minha comida preferida…

E eu sou a paixão pela doçura agora e amanhã o mergulho de cabeça no apimentado.

Longe da prisão dos números e dos nomes que me dão, eu sou a liberdade e a imperfeição.

Eu sou a que fica em cima do muro, sentada na encruzilhada, observando as setas dos caminhos e me possibilitando estar um pouco no ‘ainda não vou fazer escolha alguma’.

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Às vezes eu sou a inação porque nenhum sentido me desperta. Eu fico no limbo, eu fico sem pressa.

Perguntam das minhas verdades e eu sou o medo estampado. Perguntam dos meus grandes saltos e eu sou o sonho desenraizado.

Por dentro eu sinto esse espaço indefinido, um sem juízo, uma alma sem filtros. Mas a vida de fora é uma coisa que se organiza de tal forma que para dar um passo eu preciso muito mais do que simplesmente existir no espaço. As burocracias me enlaçam.

Engraçado…

Leia mais: Não quero caber no sonho de ninguém, quero apenas viver os desajustes do meu coração.

Minha alma não tem CPF, meu abraço não tem gênero, meus sentimentos não têm idioma, por vezes nem verbete. Minha motivação de vida não se ampara numa posição, numa profissão. Meu endereço não é sempre o meu lar, meu cartão de crédito furado diz muito menos do que o meu olhar.

E para me conhecer um pouco é melhor tirar os sapatos, acender um cigarro e dizer alto ‘imagina se…’

(Autora: Clara Baccarin)
(Fonte: clarabaccarin.com)
*Texto publicado com autorização da autora

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