Problemas transformados em justificativas

Em meu livro Mudança e Psicoterapia Gestaltista afirmo que conceituar comportamento como movimento é fundamental para responder às questões humanas, sejam elas vivenciais ou teóricas. Extraio deste conceito implicações para o processo humano, seu desenvolvimento, suas problemáticas, seu tratamento. Estar-no-mundo implica em mudar, em movimentar-se e a continuidade da mudança é fundamental, pois o desenvolvimento humano é uma continuidade de teses negadas, antíteses afirmadas, sínteses constituidoras de novas teses, antíteses etc em outras palavras, desenvolvimento humano é mudança, é superação do estabelecido, do contexto de ajuste, é atualizar-se, é responder aos questionamentos, aos estímulos do estar-no-mundo.

Nem sempre a mudança tem o sentido de disponibilidade e apesar de sempre ser descontextualização, ela pode criar manutenção ou uma organização rígida. Em estruturas divididas, pulverizadas em sintomas, a mudança pode corresponder à neutralização de possibilidades, onde os problemas são transformados em justificativas e aí a estagnação se instala, surgem posicionamentos, criando contextos perceptivos estáticos, autorreferenciados.

Nas situações de permanência e estagnação se realizam trocas, não são mudanças, são apenas substituições. Quando os contextos permanecem, tudo é percebido em função desta permanência. Toda percepção (Gestalt Psychology) se dá em termos de Figura e Fundo, percebemos o elemento Figural, o Fundo nunca é percebido, embora seja estruturante contextual da percepção; existe reversibilidade, o que é Figura transforma-se em Fundo e vice-versa: percebemos uma pessoa na rua, por exemplo, a pessoa é Figura e a rua é Fundo; quando se chama a atenção para a rua, a rua passa a ser Figura e a pessoa passa a ser Fundo. Esta reversibilidade é a dinâmica do processo perceptivo. A estaticidade quebra a dinâmica, gerando a permanência do Fundo, da moldura, criando uma série de estigmas, de preconceitos, tanto quanto, certezas e confiança. Pensar em alguém como um rapaz de ‘boa família’, de ‘boa aparência’, sempre gentil, educado, sem perceber que ele é um manipulador, um mentiroso contumaz – mesmo quando se é vítima direta de suas manipulações – é um exemplo, deveras comum, de estagnação perceptiva: o determinante da percepção é a moldura mantida (‘boa família’, ‘boa aparência’, ‘gentil’, ‘educado’). Tudo é percebido no contexto desta variação: transformação do que é evidente, do que contraria todas as certezas prévias, em dados irrelevantes.

Quando convicção – oriunda de garantias outras que não as vivenciadas – e medo substituem vazios motivacionais, isto se constitui em instrumento, ferramenta que permite viver: construir casa, empresa, familia e relacionamentos vários. O denso substitui o sutil, tanto quanto, o corporifica. Tudo converge para a preocupação de ficar bem, de ser aceito, ser reconhecido através de seus funcionamentos, de seu status. Este processo é criador de imagens, oportunismos, medos, ansiedade, agressividade, timidez, faz-de-conta, vazio, tédio, angustia que sempre denunciam sua humanidade amassada pelos compromissos criadores de limites esvaziadores.

Mudar resulta de dispensar padrões e contextos de referência, de descobrir o que está aqui e agora, o que é e o que não é. É o presente percebido no contexto do presente. Esta interrupção cria descontinuidade, quebra contextos anteriores e faz surgir o novo. O anterior descontextualizado é o novo, pois sua referência, seu significado muda. Relacionar-se com o novo só pode ser estabelecido quando há disponibilidade – isto é a mudança.

Não havendo disponibilidade, substitui-se e tudo permanece, tudo pode ser substituido e parecer igual, tanto quanto, diferente, quando apenas se percebe parcializadamente. A distorção parte/todo cria um infinito de substituições e transmite a variada experiência que é apenas colorir o preto e branco do vazio, das expectativas. Quanto mais se substitui, mais se mantém, menos se muda e transforma. Os mestres da exploração e conveniência política já diziam e dizem que é preciso “mudar para manter”, ou seja, sabem como substituir figuras, imagens e assim parcializando, transformam totalidades em mosaicos labirínticos.

No nível individual, “mudar para manter” (cuidar do sintoma) é a regra constante quando se transforma problemas em justificativas. Os conflitos criados por este artifício, transformam o problema em apoio (justificativa) e também em opressão (impossibilidades conflitivas).

(Autora: Vera Felicidade é psicóloga)

(Fonte: wsimag.com)

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