Um programa de reabilitação neuropsicológica para pessoas com dislexia foi desenvolvido pelo neuropsicólogo Ricardo Franco de Lima. O programa, inédito no país, é dividido em quatro módulos e foi testado com sucesso em pacientes do Ambulatório de Neuro-Dificuldades de Aprendizagem do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e do Centro de Investigação da Atenção e Aprendizagem (Ciapre). O foco da reabilitação são as chamadas funções executivas, segundo o pesquisador, aquelas habilidades que nos ajudam a atingir alguma meta, como, por exemplo, o planejamento, a organização, o uso de estratégias, a flexibilidade mental e o automonitoramento. O programa é parte da tese de doutorado do pesquisador, defendida na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp.

Já é sabido que as pessoas com dislexia têm muita dificuldade na leitura e escrita, porque o transtorno, que é neurológico, envolve áreas do cérebro relacionadas à linguagem. “Quando essas áreas são mais exigidas, por exemplo, no período da alfabetização, é que começamos a perceber mais facilmente as dificuldades. Antes desse período, a criança pode ter atraso no desenvolvimento da linguagem, trocas na fala ou dificuldades para incorporar algumas palavras no vocabulário. Pode ainda ter dificuldades em compreender rimas, cantigas e também dificuldades psicomotoras”.

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Segundo Ricardo, não há programas brasileiros descritos para a dislexia, apesar da ampla utilização dos modelos de reabilitação neuropsicológica e de autorregulação da aprendizagem nos contextos clínico e educacional. Em geral, a abordagem terapêutica costuma ser encaminhar o paciente para um profissional de fonoaudiologia ou tratar as questões emocionais.

As limitações nas funções executivas foram percebidas pelo próprio pesquisador, em sua dissertação de mestrado. “Verifiquei que as crianças com dislexia, além das alterações na linguagem que são as principais e centrais, também têm dificuldades nas funções executivas”. Daí a ideia de desenvolver um programa de reabilitação dessas funções, que também impactam no desempenho da leitura e escrita.

De acordo com Ricardo, não é fácil para o disléxico tanto a decodificação das letras e das palavras, como também perceber e monitorar o próprio desempenho. Por exemplo, na leitura da frase “o menino pegou a bola”, pode ser complicado para ele transformar as letras em sons, mas também, como há impedimentos na função executiva, o disléxico pode não perceber isso e mais ainda, não pensar em uma alternativa para o problema. Por fim, ele pode ter lido as palavras e não ter entendido seus significados.

Não é fácil diagnosticar a dislexia. Ricardo afirma que a confirmação de que a criança tem o transtorno se dá geralmente entre o segundo e o terceiro anos da escola e por uma equipe de profissionais de diferentes áreas, que precisam descartar uma série de possibilidades que dificultam a leitura e a escrita. “De todas as crianças encaminhadas ao ambulatório, apenas entre 1% a 2% tem o diagnóstico de dislexia. A maioria nem deveria estar em um hospital, são problemas que poderiam ser resolvidos na escola”, ressalta o pesquisador. Isso porque o serviço não recebe uma amostra espontânea da população, mas somente as crianças encaminhadas por já apresentarem alguma dificuldade na escola.

O programa

Para desenvolver o programa, Ricardo juntou técnicas da neurociência e da neuropsicologia com outras formas de intervenção na área educacional. “Foi uma aproximação da neurociência e a educação”. A intervenção é clínica, para ser utilizada em consultório, e deve ser feita em um período considerado curto, de até seis meses. Cada sessão foi descrita minuciosamente. Ricardo desenvolveu também os materiais utilizados, como vídeos, áudios, slides e materiais de manipulação. Tudo disponibilizado em um CD para os pacientes.

No terceiro módulo as funções executivas começam a ser trabalhadas e são aplicadas às competências de estudo. “Há várias competências que poderiam ser trabalhadas, mas para a pesquisa a gente teve que eleger algumas, entre elas a administração de tempo, organização do ambiente de estudos e de materiais, a lição de casa e o estudo para provas”. O quarto módulo é dedicado às funções executivas aplicadas à compreensão de leitura.

Ricardo enfatiza que um programa de reabilitação precisa ter validade ecológica, ou seja, relação com o dia a dia da criança ou do estudante. É importante que o profissional saiba, por exemplo, como é organizado o quarto do paciente, onde e como ele guarda seus livros, cadernos e objetos. “Tudo isso é importante para o paciente saber por onde começar, ajuda no automonitoramento que vai repercutir na leitura”.

Para cada atividade há estratégias. Como a criança tem dificuldade de leitura, o programa sugere o uso de outros mecanismos como áudios, vídeos, a utilização de plataformas educacionais, aplicativos do celular. Metas são criadas: parar quando há dúvida, anotar em um papel que sirva de lembrete e levar para o professor. Em determinadas situações o terapeuta combina com o paciente um número de perguntas para ele fazer em aula. “O paciente tem que estar atento para perceber que não entendeu e levantar a mão”.

Quando as funções executivas já foram bastante praticadas passa-se ao quarto módulo, com estratégias que vão desde uma conversa sobre as representações que a criança ou adolescente tem sobre a leitura até o trabalho com o texto propriamente dito. “Selecionamos um tipo de texto do gênero narrativo, mais fácil, pela proximidade com o relato oral e com as histórias”.

Um “mapa de histórias” ajuda bastante. “Em uma folha escrevemos o título da história ou livro, autor, cenário, personagens, conflito, resolução, consequências… O paciente vai construindo uma imagem que se encaixa naquilo que ele escuta ou lê. Trata-se de um mediador externo que ajuda a pessoa a pensar e que depois é retirado”.

O programa completo foi desenvolvido com um grupo de seis adolescentes entre 12 e 15 anos com dislexia, durante até oito meses. Os resultados foram comparados a um grupo controle. Ricardo avaliou as mudanças sob vários parâmetros. As dificuldades mais vinculadas à linguagem, entre as quais, a velocidade da leitura, foram persistentes, quando comparadas ao grupo controle. Entretanto na análise intragrupo, ou seja, dos indivíduos do grupo com eles mesmos, houve uma melhora significativa.

Outras limitações, especialmente em relação às funções executivas, foram minimizadas após a intervenção, “a ponto de a gente não perceber diferenças significativas em relação ao controle. Eles conseguem ter um desempenho melhor na hora de recontar um texto, de perceber se está correto, etc… Desenvolvem estratégias que vão repercutir na sala de aula”. Ademais, os pacientes saíram ganhando em outros aspectos do desenvolvimento como a melhora na autoestima. “Eles realmente ficam mais confiantes, mais autorregulados, e têm mais autonomia”.

Agora é a manutenção dos efeitos do programa de reabilitação que representa um desafio, diz Ricardo. “Se a gente pensar que a dislexia é um transtorno crônico, ou seja, ele vai conviver com essas características para o resto da vida, o objetivo é que o disléxico saiba o que ele tem, e de que maneira ele pode usar suas potencialidades e aprender estratégias para minimizar as dificuldades. Além disso, ao longo da vida, essas estratégias podem ser adaptadas para novas demandas”.

(Fonte: unicamp.br )
(Autora: Patrícia Lauretti)

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