“(…) esse excesso de narcisismo e de egolatria é o que caracteriza o machismo” -Anna Muylaert – diretora do filme ‘Que horas ela volta?’.

Se as mulheres são de Vênus? Não sei. Só sei que não há criatura mais encantadora e enigmática do que a mulher.

Isso, se levarmos em consideração o feminino como paradigma, o que para a psicanálise – num primeiro momento – seria uma bifurcação enigmática do masculino (objeto completo e decifrável).

Então… São indecifráveis as mulheres?

O próprio criador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), num salto de lucidez, em meio ao cerco vitoriano e patriarcal de seu tempo, propõe que procuremos na arte e na poesia as respostas sobre a feminilidade.

Para ele, naquelas circunstâncias e, talvez, até hoje, a ciência não consegue dar conta de uma resposta satisfatória.

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Na obra “O que Freud dizia sobre as mulheres”, o psicanalista e escritor José Artur Molina procura identificar na sociedade vienense de fins do século XIX as razões que levaram Freud a analisar as mulheres a partir de um ponto de vista essencialmente falocêntrico.

O livro de Molina revela que as mulheres tiveram um papel fundamental na psicanálise. Foram as histéricas protagonistas da criação do método freudiano, pois, na limitação de seus desejos estaria a razão do sofrimento delas.

A psicanálise revoluciona o tratamento das histerias, mas seu conceito de feminino se enclausura numa lógica fálica.

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O artigo, “O Poder Fálico da Mulher e a Feminilidade no Homem”, de Valdeci Gonçalves da Silva, diz que o enigma a que se refere Freud, na verdade, se deve ao fato do homem imaginar a coexistência da feminilidade na mesma mulher como boa, passiva, amorosa, castrada, masoquista, de um lado; e seus componentes destruidor, potente, fálico, castrador, sádica, de outro.

Para Valdeci, a vida sexual da mulher adulta, segundo o pai da psicanálise, é um dark continent (um continente negro). Jabor – num raro momento, diga-se de passagem -, citado no artigo como um aficionado pela psicanálise, foi capaz de contestar: “É um preconceito essa mania de dizer que as mulheres são “incompreensíveis” (mesmo Freud)”.

Ser machista hoje além de demonstrar uma fraqueza de caráter está fora de moda, apesar da impressão de “enigma” das mulheres estimularem e fortalecer o imaginário masculino.

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Não é e não pode se constituir, para o homem, uma ameaça, mesmo com a plena consciência de que o segredo do sucesso está no poder de sedução e de castração. Coisas que só elas têm. Como são superiores!

Enfim, o resumo do churrasco é o seguinte: para que filé se a melhor parte veio da costela?

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Roney Moraes
Psicanalista; Especialista em Saúde Mental e Dependência Química; Mestre em Filosofia da Religião; Doutor em Psicologia (Dr.h.c); Doutorando em Psicanálise (Phd); Analista Didata da Escola Freudiana de Vitória (Acap); Ex-presidente e membro da Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees); Coordenador do Centro Reviver de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e outras Drogas (Crepad); Membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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