Se estou conversando com uma mulher e os olhos dela se enchem de lágrimas – isso acontece frequentemente com amigas, colegas de trabalho e namoradas – tenho a sensação, tristíssima, de ser um humano defeituoso. É como se faltasse alguma coisa em mim que me impedisse de expressar meus sentimentos e emoções da mesma forma. Enquanto elas choram, abraçam, suspiram, tremem, riem, gritam e coram, eu tenho apenas o silêncio constrangido ou a racionalidade. Diante da algaravia exuberante dos sentimentos femininos, quase nada.

A sensação não é minha apenas. A perplexidade dos homens frente ao repertório de emoções das mulheres é antiga e disseminada. Meu sentimento mais comum é de inveja – como elas conseguem ir tão fundo e tão rápido dentro de si mesmas, enquanto eu me sinto preso numa espécie de insensibilidade? – mas é possível também ter medo e raiva. É fácil ser frustrado ou afogado por essa aluvião de emoções. É comum que, por causa de sentimentos ou da ausência deles, a conversa entre homens e mulheres descambe para a mútua incompreensão.


Houve um tempo, que terminou recentemente, em que era possível passar a vida no universo seguro das emoções masculinas. Nós ditávamos o mundo e estabelecíamos as regras de acordo com a nossa objetividade. Fora da intimidade do casal ou da família, não havia espaço para o vasto vocabulário das sensações femininas. Agora, isso mudou. As emoções das mulheres transbordaram para fora do ambiente doméstico e exigem ser levadas a sério. Isso criou, para todos nós, um mundo mais justo, mas muito mais complicado.

Antes, uma mulher chorando no trabalho era motivo de escárnio e piada. Agora, é pelo menos tão sério quanto um cara esbravejando. Chefes perplexos passam horas administrando mágoas, inseguranças e ressentimentos que não são capazes de entender. É um mundo novo de sutilezas e sensibilidades que se impôs, a despeito da resistência dos homens. Se pudessem, eles diriam às mulheres que parassem de mi-mi-mi e voltassem ao trabalho, mas não podem. Elas conquistaram o direito de ser elas mesmas durante o expediente. Portanto, há que sentar, ouvir, conversar e acomodar sentimentos que aos homens, frequentemente, parecem exagerados e injustos, mas que se tornaram parte da realidade. Os homens – ao menos esta geração de homens – não compreendem, apenas aceitam. Este é outro motivo pelo qual as mulheres tendem a prosperar nas organizações modernas. Elas compreendem, e compreensão tornou-se essencial a qualquer projeto.

Fora do trabalho, quando as pessoas não têm obrigação de se entender, as coisas se tornaram ainda mais difíceis. As mulheres querem colocar seus sentimentos na mesa e nós, homens, reagimos.Não é apenas o fiu-fiu que incomoda as moças nas calçadas e que os homens terão de aprender a suprimir. Há coisas mais sutis que emperram o convívio.

Outro dia, eu estava numa discussão de grupo e uma moça manifestou seu incômodo diante da postura de alguns homens, que a ela parecia erotizada e agressiva. Era uma queixa delicada, quase uma impressão, e tive a sensação de que se tratava de uma coisa só dela, uma bobagem. Mas não. Imediatamente, outras mulheres ergueram a mão para manifestar um sentimento parecido. Para elas, o incômodo, qualquer que ele fosse, era concreto e tangível – e, obviamente, transcendia aquela situação. Se tratava de uma insatisfação geral com o universo masculino.


Percebem o abismo entre as percepções?

Os homens ficam alarmados diante dessas reclamações abstratas. Sentem-se injustiçados e inseguros. Pedem que se ofereçam evidências objetivas, atos, palavras, gestos. Mas não há nada isso. Estamos no terreno da subjetividade feminina, que pode ser muito escorregadio. As mulheres captam e reagem a mensagens que os homens nem sempre estão conscientes de estar enviando. O espaço para mal-entendidos é enorme, e não vai se reduzir no futuro próximo. As percepções femininas irão ganhar espaço e se impor ao nosso redor – com vantagens e desvantagens para todos.

É óbvio que um mundo que responda aos sentimentos de metade da população é um mundo mais justo. É evidente, até para o mais xucro dos homens, que não se pode construir uma sociedade, uma família ou uma relação de casal harmônicas ignorando a sensibilidade feminina. As mulheres oferecem ao planeta um olhar sutil, capaz de distinguir matizes de sentimentos e sensações que a cultura masculina não percebe. Com esse olhar ganha-se inteligência, amplitude e profundidade, mas não só. Há confusão também.

A cultura em preto e branco do universo masculino funciona como proteção. A objetividade é um escudo contra o caos dos sentimentos. A cultura feminina permite a expressão de um leque maior de emoções e a percepção de um mundo mais complexo em seus detalhes, mas tem um lado B. Como se desliga a sensibilidade quando ela começa a se tornar autodestrutiva? Como se faz para lidar de forma organizada com o mundo exterior quando uma multidão de vozes contraditórias grita dentro de nós, exigindo expressão?

O silêncio interior dos homens é uma coisa triste – como as lágrimas das mulheres frequentemente me fazem notar – mas ele permite ouvir o mundo com mais clareza. É um mundo mais simples esse que os homens habitam e enxergam, mas ele vem funcionando há milênios. Agora, as mulheres nos propõem o desafio de fazer funcionar um mundo mais parecido com elas – com mais cores, mais dimensões, mais detalhes e muitos mais sentimentos. Não vai ser fácil, mas não há alternativa. O mundo que os homens construíram à sua imagem e semelhança está ruindo. É necessário começar um mundo novo.

(Autor: Ivan Martins)

(Fonte: epoca.globo.com)

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