Uma criança não faz birra por ser mimada. Ela faz birra porque quer chamar a atenção, precisa de cuidados, sente-se sozinha e com medo, algo a incomoda, precisa de alguém para ajudar-lhe nas suas mais diversas ansiedades e desejos, não sabe o que escolher para si e fica perdida diante de tantas atribuições que lhe damos durante a sua pequena infância.

Uma criança birrenta precisa de cuidados especiais dos pais e responsáveis, necessita de um olhar atencioso e, muitas das vezes, de um psicólogo.

A birra da criança serve para extravasar as suas emoções e experienciar a raiva, o medo, a tristeza, a dor, a solidão, o desamparo e a orfandade do brincar.

As crianças sentem-se órfãs das brincadeiras junto com outros amigos, pois a sociabilidade é muito importante para o seu crescimento. Muitas vezes, os pais não permitem que desçam para brincar no parquinho do condomínio ou as impedem de sair à rua sem explicar o motivo pelo qual elas não podem fazer aquilo.

Uma criança birrenta procura por atenção desesperada dos adultos, principalmente, aquelas que têm pouca idade. A birra é uma forma de pedir ajuda aos adultos que a criança encontra, ainda mais aquelas que não falam ainda.

As crianças são submetidas todos os dias a tarefas e afazeres que muitas vezes fogem dos seus desejos, pois tudo o que mais querem é brincar e correr pela casa inteira. O não pode isso e não pode aquilo sem motivos aparentes faz com que a criança sinta raiva dos pais ou dos responsáveis tornando-se essa raiva uma birra, forma melhor encontrada por ela para demonstrar a sua emoção mais profunda.

As birras das crianças não podem ser deixadas de lado, os adultos não devem fingir que não estão vendo, que isso não merece atenção, que nada está acontecendo, pois quando joga para fora as suas emoções mais profundas, a criança busca uma solução para elas, a sua pequena alma está cansada de lidar com um problema que não sabe como resolver.

Não devemos confundir as crianças birrentas com as mimadas, são duas coisas diferentes. A birra é um pedido de ajuda que se desenvolve a partir de uma emoção.

A raiva é uma das emoções mais fortes na criança, pois no seu pequeno mundo não consegue compreender por que o mundo lhe diz tanto não, por que não pode fazer as coisas que deseja, por que não pode dormir até tarde, por que não pode levar o seu animal de estimação para a cama, por que os adultos não conseguem compreender as suas vontades e impõem limites para tudo.

Para muitas crianças os pais proíbem que façam diversas coisas senão ficarão de castigo, mas nunca conversam sobre o motivo de tais proibições. A criança não entende o que lhe é negado e faz birra para notar que está aborrecida com aquele tipo de atitude ou gesto.

No pequeno mundo das crianças, tudo é grande demais, assim também são os monstros que nascem dentro delas quando não prestamos atenção as suas birras, ao invés de solucionarmos problemas fáceis, acabamos criando monstros imaginários para elas.

Quando atendemos as birras das crianças, elas ficam felizes não por serem mimadas, mas por termos ouvido os seus desejos, elas ficam contentes com a importância que damos para os seus anseios e vontades. Todo mundo quer sentir-se importante, não é diferente com a criança, ela tem emoções e precisa de amor, carinho, conselhos, segurança, aconchego e diálogo.

As birras despercebidas pelos pais ou responsáveis podem desencadear ansiedades e outros traumas que com o tempo prejudicarão as relações da criança com as pessoas ao seu redor, animais e a natureza. Muitas birras tornam-se tão graves que acabam necessitando de psicólogos.

Dar atenção à birra da criança é dizer para ela que você está ali, que a presença dela não está incomodando, que o não que lhe foi dado tem um motivo a ser dialogado assim que possível. É preciso cuidar bem da criança tratando-a com respeito e admiração. Mesmo que as suas birras roubem-nos a paciência, nunca é demais dar afeto e atenção.

Assim, a criança que faz birra é porque está sentindo algo a incomodar, logo os pais devem tomar precauções e buscar conversar com ela para saberem do que está precisando.

As emoções das crianças são mais visíveis do que a dos adultos, porque elas ainda não têm os sentimentos de vergonha dentro de si, ainda não estão marcadas pelas regras e normas de alguns adultos de que chorar em público é feio.

Para uma criança chorar no supermercado ou na rua não tem problema nenhum, sentiu vontade de chorar porque ficou com raiva ou triste e abre o bocão diante de todos. Se fôssemos iguais as crianças estaríamos menos doentes. A birra da criança é um sinal de alerta de que algo errado está a acontecer, e quanto antes a ajuda chegar melhor será para todos.

A criança birrenta deve ser amada igual a todas as outras, pois ela está gritando ao mundo que precisa de ajuda.

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Rosângela Trajano
Rosângela Trajano é licenciada e bacharel em Filosofia com mestrado em literatura, escritora, ilustradora e professora de filosofia para crianças. O que mais gosta de fazer é poetizar para crianças. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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