Amor

Terminemos o dia bem

Não, desta vez eu não vou cair na armadilha. Já sabemos onde isso vai parar. Primeiro você fala alto e se irrita, depois eu entro em parafuso, começamos a nos desgastar psicologicamente com coisas que não fazem o menor sentido e, até a sua cor favorita ser diferente da minha, vira motivo de discussão.

Vamos esquecer por um momento essas duas pessoas chatas que nos tornamos?

Vamos dançar uma música qualquer na sala, vamos pedir uma pizza, eu deixo você escolher o sabor, mas você me deixa escolher a bebida. Depois a gente escolhe um filme na TV como trilha sonora das nossas conversas debochadas e totalmente sem sentido sobre as notícias sérias da internet. Quero dizer, vamos ser leves como éramos – o tempo todo – antigamente?

Se amar é querer bem, então nos machucar faz perder todo o sentido. Ter problemas no relacionamento é normal, a diferença está em como lidamos com eles, e só fazemos a diferença se contornamos da melhor forma possível a situação, mesmo que isso signifique dar o braço a torcer.

Não daremos certo o tempo todo e sempre teremos coisas para consertar, mas a verdade é que nunca daríamos certo tanto tempo com outras pessoas. Eu sou chato, mas você é tão chata quanto eu.

Leia mais: O amor não é uma mágica – texto inédito de Flávio Gikovate

E nessas chatices de ser quem somos, é que percebo o quanto é bom ser chato com você. Por isso vamos levar o nosso mau humor para um lugar que não atrapalhe a relação, amanhã você implica com a sua colega de trabalho e eu discuto a relação com o motorista de ônibus.

É que a vida é muito curta para dormir brigado com quem a gente ama. Que o orgulho não nos leve mais tempo do que os problemas e os compromissos já levam. Que a teimosia não vire inimiga dos nossos sentimentos, porque um relacionamento nunca se tratou de ganhar uma guerra, mas sim de lutar juntos pelo bem de dois querer.

Eu sei, é ilusão minha tentar manter assim para sempre, haverá dias em que eu entrarei em parafuso novamente e tudo será normal. Brigaremos insensatamente e diremos coisas que teremos que pedir desculpas por uma semana, mas hoje eu prefiro ser esta escolha certa de colocar um sorriso no rosto no meio da sua sobrancelha enrugada de raiva, e te encher de beijos até você parar de argumentar.

Leia mais: Como aceitar as diferenças?

Melhor acabar o dia assim, vem cá! A gente deita juntos, se abraça, fala umas bobagens e depois se ama. Terminar o dia bem é não perder a noite e ganhar o outro dia também. E assim levamos a vida tentando driblar os problemas como quem dança uma dança, e trocamos a melancolia dos tangos de domingo pela alegria do samba da segunda-feira.

E assim não é melhor? Para que fazer guerra, se a gente pode fazer amor?

Francisco Galarreta

"Acredito que todo dia é uma nova oportunidade para aprender algo novo sobre o que sentimos e sobre quem somos. Compartilho todos os meus pensamentos sobre relacionamentos em textos. Gosto de café, mas tenho gastrite. Gosto de gatos, mas tenho alergia. Não gosto de dormir, mas tenho o sono profundo...e o coração leve. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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