Eu me vi dentro de um barco a remo. Ora, e desde quando eu sei remar? Um vento bom soprava por ali, trazendo o cheiro da maresia, que se misturava com o odor do cafezinho morno na garrafa. Vez ou outra, o vento manso, quase brisa, embaraçava os meus cabelos de forma tão poética que eu comecei a gostar da aventura.

Mas, e os remos? Se o mar permanecer na calmaria, sem problemas, vou alcançar a ilha. A ilha? Sim, agora me lembro das razões que me ensandeceram a ponto de entrar num diminuto calado e atravessar o oceano. É que eu encontrei o mapa do tesouro. Pensando nisso, comecei a remar com mais intensidade. Precisava aproveitar o dia, o bom tempo, a paixão pelo sonho e a determinação em alcançá-lo. Há de se compreender a diferença entre sonhos e projetos –, disse uma voz interior, mil vezes maldita por simplesmente ser a voz da razão.

Bem, não era um sonho, pois sonho é aquela coisa que a gente nutre desde quando se entende por gente, como conhecer a Grécia, ter uma casa na árvore ou nadar pelado no lago do chafariz. Mas o mapa que eu tinha encontrado não era aquele que me levaria à Grécia, à casinha na árvore ou à praça do chafariz (sonho besta!). O mapa que encontrei, na verdade me foi ofertado e agora se chamava ‘projeto de vida’.

Assim, estava eu com o meu mapa do tesouro na mão direita, a mesma que segurava com força um dos remos, e fui remar: direita, esquerda, direita, esquerda e, oh céus, essa ilha que não chega nunca. O sol delirante, a noite fria, as tempestades, a sede, a fome, a presença constante de tubarões e golfinhos doidivanas. E, pior de tudo: eu estava perdendo a força física, a força mental e agora minhas emoções oscilavam entre a abnegação e o desespero.

Olhei para adiante: o que eu tinha para atingir o alvo, além da própria ambição? – Uma bússola quebrada, um par de remos puídos e… nada mais. Olhei para o céu e gritei por socorro. Aquele bem presente na angústia. Mas tudo em minha volta parecia mais assustador a cada remada que eu dava e mesmo que eu tivesse a plena convicção de que, ao chegar à ilha e encontrar o tesouro, eu seria uma pessoa encantada, daquelas que passam na rua e todos tiram seus chapéus,  a única coisa que eu conseguia desejar era jamais ter saído de minha cabana na beira da lagoa, onde eu tinha água doce e pescados em abundância.

Enquanto pensava nisso, quase sentindo o frescor da singela palhoça, vislumbrei a ilha e, tal qual um ser possuído por espectros do mal, passei a remar com tamanha euforia e ganância que perdi os remos. Mas a minha vontade de ser encantado era maior e passei a remar com as próprias mãos: ora do lado esquerdo, ora do lado direito. Forças sobrenaturais invadiram o meu corpo e minha mente que agora, obstinados pela ânsia do ter, sacolejava o barco com sofreguidão e quanto mais me aproximava da ilha, mas sôfrego eu ficava.

Num repente, no paroxismo da loucura, dei um salto extravagante, conjeturando que o maldito salto me levaria a pousar na praia.   Mas, tal qual uma isca idiota, mergulhei desajeitadamente no mar. Pude sentir a água salgada inflando os meus pulmões e naquele instante eu estava certo de que morreria. E morreria sem lutar pela vida, pois não havia mais força alguma em mim para isso. Assim, fechei os olhos e me deixei ser levado pelo entorpecimento maravilhoso e o escuro bonito que me trouxeram a paz de tanto eu precisava. Morto – pensei –, e fiquei quieto esperando a hora de enxergar a tal luz azul.

Um clarão amarelo, quase ensurdecedor, aqueceu o meu rosto e eu fui arrebatado das águas. Foi então que percebi a natureza em minha volta estava intacta, como se jamais tivesse sido tocado por mãos humanas. Perfeita, bela e indiferente aos elogios: eis a cabana, a lagoa, o pomar cheiroso e eu em harmonia com todos eles.

Naquele instante de real felicidade, que só se experimenta quem acorda de um pesadelo,  eu acabara de certificar-me que, ao rejeitar o mapa do tesouro que me fora ofertado, eu havia feito a mais corajosa de todas as escolhas: a paz de espirito.

(Autora: Clara Dawn)

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