O amanhã como desculpa. A desculpa como esperança. A esperança como desculpa para adiarmos. O amanhã a servir-nos como promessa de encontro com a versão mais inteira de nós.

Amanhã faço, realizo, aconteço.Amanhã serei mais saudável, mais tolerante, mais autêntico. Amanhã falo com o chefe, ligo para os meus pais. Amanhã serei menos distância, menos multidão, ansiedade, medo, tristeza, menos estrangeiro no próprio peito. Amanhã salto, insisto, persisto, cicatrizo, desculpo, permito-me.

Amanhã serei mais justo, menos ingênuo, mais sereno, menos só. Amanhã porei um ponto final nas minhas já cansadas reticências. Amanhã riscarei travessão para dizer das minhas ensaiadas coragens. Amanhã, deixo claro e me declaro para ela. Amanhã, perdoo-me. Amanhã, amanheço.

Hoje, não. Hoje é prosa. Amanhã, poesia. Amanhã mais fácil, mais dócil, mais doce. O futuro como pretexto para não ser presente e o amanhã como prato principal para qualquer virtude ausente.

O amanhã em que me orgulharei de mim. O amanhã que me ocupo enquanto o hoje me atravessa, me escapa e me desocupa. Hoje, não. Amanhã, sim.

Ou vice-versa.




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