Recentemente lançado no Brasil, o filme “It: a coisa” é sucesso de bilheteria, assim como foi também no mundo todo. O longa-metragem se passa na cidade fictícia de Derry e é baseado na produção literária de 1986 do famoso escritor estadunidense Stephen King.

O filme conta a história de um grupo de crianças que são atormentadas por uma entidade do mal, o palhaço assassino Pennywise. O palhaço na verdade nem sempre se apresenta na forma assustadora de palhaço, mas se materializa conforme o maior medo das crianças: seja como zumbi, ou espírito, um personagem folclórico, uma morte desastrosa de toda família, ou o simples medo de crescer e admitir que o mundo protegido da infância foi uma ilusão.

De modo geral, o que nos interessa aqui não é a história de terror propriamente dita, mas os diferentes significados e interpretações que o filme pode provocar reflexão. Nesse sentido, o tema central da história é o medo. “A coisa” são os medos escondidos, os mais profundos. Além da cidade de Derry, no mundo real os medos também se fazem presentes em diferentes contextos, de diferentes formas.

Cada pessoa tem um medo único, muitas vezes criado a partir de alguma experiência traumática, que pulsa a cada nova experiência de confronto real na tentativa de ser reelaborado. Enfrentar os medos não é uma tarefa fácil e por isso, muitas vezes, ele é deixado de lado, nem mesmo pensado.

Infelizmente – ou seria felizmente? – não há remédio ou fórmula mágica que possa eliminá-lo. O medo é um fenômeno psicológico estrutural e fundamental para a personalidade. Elemento primitivo, presente desde o mais ancestral registro egoico do ser humano. É importante na medida em que nos distancia de perigos reais, assegurando a vida, mas pode ser um problema quando perde o controle, provocando reações paralisantes que impossibilitam o viver.

Assim como uma criança pequena que recorre ao quarto dos pais para amenizar sua angústia frente ao medo noturno. Mesmo na adultez, recorrer ao suporte humano de uma figura confiável é um possível passo para que o medo seja posteriormente melhor compreendido e enfrentado. Entretanto, o medo não poderá ser combatido por ninguém além do sujeito aterrorizado, mas a segurança de não estar só pode auxiliar e fornecer ferramentas potentes ao fortalecimento de si-mesmo, e então, aos poucos, retomar a situação traumática de modo diferente da original, podendo agora, superá-la.

Essa foi a maneira descoberta pelas crianças no filme ao serem “convidadas” ao enfrentamento de seus próprios medos, numa tentativa de sobreviverem às armadilhas do palhaço Pennywise. O afeto e lealdade do grupo fizeram a diferença no final da trama para que os temores internos pudessem ser superados.

Muito além do medo produzido por uma história de terror, “It: a coisa” é uma obra psicológica que legitima a importância do medo e também a necessidade da criação de instrumentos, como o afeto, o vínculo, o fortalecimento emocional para o embate com o traumático a fim de superá-lo, possibilitando novos sonhos e o concretizar de novas vivências.

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João Paulo Zerbinati
Psicólogo clínico de orientação psicanalítica, atendendo em Itápolis-SP e Ribeirão Preto-SP. Graduado pela PUC-Campinas (2014). Mestrando pela Faculdade de Ciências e Letras, UNESP-Araraquara (2017). Membro do grupo de pesquisa SexualidadeVida USP\CNPq. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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