Eu lembro bem que quando eu comecei a fazer terapia, eu não sabia direito como funcionava o processo. Eu era até meio infantil, sabe? Achava que era a salinha do lamento. Eu achava basicamente que a terapia era o ambiente onde eu tinha carta branca para escancarar minhas pequenezas, reclamar dos meus poucos problemas e conversar sobre picuinha.

Só sei que eu passei um tempinho indo até lá em busca do chazinho da recepção e um ambiente confortável para o desabafo semanal. Comecei a fazer isso sistematicamente até que um dia, diante de uma reclamação qualquer sobre uma entrevista de emprego mal sucedida, minha terapeuta perguntou o que eu achava que deveria fazer ou deixar de fazer para que aquilo não se repetisse no futuro.

A pergunta pode até parecer simples, mas juro que aquilo me calou por um tempinho. Fiquei meio indignada com aquela intromissão em meio à minha reclamação, fiquei quieta durante uns vinte longos segundos e foi só durante esse silêncio que eu descobri que a salinha da terapia não servia para eu falar sobre as mudanças que eu gostaria de ver nos acontecimentos passados, como se as reclamações tivessem efeito retroativo, mas para refletir sobre as mudanças que eu poderia de fato implementar em mim para construir novas perspectivas de futuro.

Digo isso porque acontecimentos ruins invariavelmente acontecem. A gente perde emprego, briga com chefe, termina namoro, toma pé-na-bunda, leva chifre, briga com irmão, mãe, primo, amigo e filho e infelizmente nada disso se transforma com lamento e rancor. A gente não muda os acontecimentos, a gente não muda o mundo e a gente não muda as pessoas. Feliz ou infelizmente, o que nós podemos mudar não ultrapassa a barreira da gente.

Eu sei que é um exercício um tanto sofrido. Refletir sinceramente sobre a nossa participação nas nossas decepções, angústias e tristezas é uma lição para os fortes e eu desconfio que ser positivo sem ser ingênuo é justamente sobre isso: encarar a realidade, assumir a responsabilidade, refletir sobre atitudes, aprendizados e vontades e finalmente conseguir vislumbrar novas e boas possibilidades.

(Autora: Duda Costa)

(Fonte: eoh)

*Texto publicado com a autorização do administrador do site.

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