Labirinto

Não. Eu não estou satisfeito e talvez eu nunca vá estar.

Eu não a visto porque não me cabe; ideia que ocupa lugar na alma mas que não preenche.

Parece que essa estranheza, essa inexatidão de mim, essa metade com que calculo minha vida inteira, essa falta e esse vazio me dão um sentido torto; uma direção avessa, uma fome que me sacia por esquecê-la.

Sou o mendigo que não quer abandonar sua pobreza. Sou o sofrer que não quer despir-se da tristeza. Eu sou a cobra que persegue a própria cauda e a si inteira devora.

Eu persigo horizontes e me canso parado; reclamo do que me falta por ignorar o que tenho; reclamo da luz por me assustar com as sombras.

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Sou ampulheta que areia devora o passar do tempo; sou o amargo descontente por não ter achado ainda o meu traço, o meu passo, minha canção, o meu par.

Sou ingrato ao jardim pelas sementes que poupei. Sou ingrato à boca pelos sorrisos que não mereci.

Sou também o medo, a desconfiança, o meio amor, o mero acaso, a meia entrega, o vazio todo, o inexato, a incerteza. E me despeço todo dia dos meus amores.

Ensaio as perdas todo dia ao nascer do sol. Vivo a me recuperar dos pesadelos e me convalescer das ilusões.

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Eu sou a fome a recusar o alimento, o náufrago a não querer mais salvação.

Distraio-me com qualquer labirinto e me perco com qualquer distração.

Sou daqueles que não sabem o que querem por saber bem o que me topa, o que me serve, o que eu mereço.

Coleciono manias, carências e angústias no porão de mim em que verdade envelheceu e onde o amor desbotou.

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A loucura e o sereno vivem dentro, a paz e o desespero são o meu reino.

Sou eu o velho rei, querendo fugir do próprio trono a tropeçar no próprio manto.




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