Sentir culpa é uma emoção humana primária e todos nós, em algum momento, sentimos culpa. Mas, devido à nossa cultura e educação ocidental, fomos criados com a ideia de sermos pecadores, culpados do pecado original.

Algumas pessoas foram educadas com esse forte sentimento de culpa, de não merecimento e de serem indignas. Assim, elas se sentem culpadas por qualquer falta, mesmo que não tenham feito nada de tão ruim. Qualquer erro por menor que seja, torna-se muito grande dentro delas, e alimentam essa culpa, criando um grande sofrimento interior.

A culpa é um fardo pesado e não precisamos carregá-la por todos nossos dias. É importante, portanto, examinar de onde vem a culpa e de que tipo ela é. Se pudermos distinguir de onde vem esse sentimento, será mais fácil nos libertar.

Como diz a professora de meditação e de filosofia yóguica Sally Kempton:

“Há três tipos básicos de culpa:

1- Culpa natural; ou remorso por algo que você fez ou falhou ao fazer.

2- Culpa tóxica, a sensação secreta de não ser uma pessoa boa.

3- Culpa existencial, o sentimento negativo que surge da injustiça que você percebe no mundo e não consegue pagar suas próprias dívidas com o que a vida lhe oferece.”

Ao identificar qual é o tipo de culpa que você carrega, você pode livrar-se dela reparando o que fez ou purificando esse sentimento, mudando seus pensamentos. Pode simplesmente deixá-la ir embora, sem remoer mais os pensamentos negativos que alimentam a culpa na sua mente e no seu coração.

Muitas vezes, uma pessoa guarda mágoas, desde a infância, pelos pais, ou pelos irmãos, ou pelos amigos, e nem admite a ideia de perdoá-los. Assim, por orgulho e raiva, ela perde algumas oportunidades de reconciliação, aumentando ainda mais esses ressentimentos dentro de si. E, se acontecer do outro adoecer e morrer, sem que tenha havido a reconciliação e o perdão, essa pessoa fica consumida pela culpa, sem se perdoar e sem esquecer.

Quem guarda ressentimentos e raiva acumulada faz mal a si mesmo, pois esses sentimentos negativos são autodestrutivos e geram depressão e tristeza.

Quando a pessoa consegue se reconciliar e perdoar o outro, se liberta dessa bagagem pesada e pode sentir uma incrível leveza de espírito.

Vamos agora falar um pouco sobre a culpa natural e a culpa tóxica:

Culpa natural

Como diz Sally Kempton : “A culpa natural é um alarme interno que ajuda a identificar comportamentos antiéticos e mudar a situação.”

Quando temos relações saudáveis com a nossa culpa natural, nós a usamos como um sinal para mudar nossas atitudes e melhorar nossos comportamentos.

A culpa natural surge de nossa empatia com os outros sofrimentos e dela surgem os movimentos para a justiça social.

A culpa natural está relacionada com ações no momento real e presente. Como, por exemplo, você pode ter dito alguma mentira ou algo que gerou conflitos, ou bateu no carro de alguém. Essa culpa pode ser bem dolorosa, principalmente se gerou algum prejuízo ou sofrimento para os outros.

Porém, a culpa natural pode ser reparável. Você pode reparar o erro, se arrepender, pedir perdão, pagar a dívida, mudar o comportamento. Depois que reparar as coisas e se reconciliar, é essencial dissolver essa culpa e não se torturar internamente, senão, esse sentimento se torna culpa tóxica, como vamos falar a seguir.

Se você tem remorso por gastar muito, controle suas contas. Se estiver brigado com uma amiga, telefone ou envie um e-mail. Se guardou mágoas da mãe, ligue para ela ou vá visitá-la. Mude a situação, liberte-se do orgulho e apego do ego negativo. Não deixe a culpa se tornar uma bagagem pesada.

Se você se culpa por trabalhar fora e não poder pegar seu filho na escola todos os dias ou não poder ficar mais tempo com ele, compreenda que, muitas vezes, é mais importante a qualidade de tempo do que a quantidade de tempo que passa com o filho. Em vez de se culpar, priorize algum tempo junto com seu filho e curta a companhia dele. Racionalize como trabalhar lhe faz bem, lhe ajuda a ser uma pessoa mais realizada e útil à comunidade.

Culpa tóxica

A culpa natural tem um lado muito negativo, quando é punida com severidade pelos pais ou torna-se um instrumento principal do controle social. Ela pode gerar um estado de sofrimento contínuo que chamamos de culpa tóxica.

Muitas mães manipulam os filhos pelo sentimento de culpa e eles ficam dependentes, se sentindo errados e culpados. Entre cônjuges e até entre alguns grupos religiosos ou sociais existe também essa manipulação pela culpa.

Isso traz um sentimento de dominação que gera muito sofrimento interno e o sentimento de inadequação, como se toda a sua vida tivesse algo errado ou se sentisse ‘defeituoso ou errado’ de alguma maneira.

A culpa tóxica é difícil de lidar porque surge dos padrões antigos (samskaras em sânscrito), que estão no subconsciente.

Raízes da culpa

Esse tipo de culpa é também gerado pela cultura judaico-cristã, um resíduo da doutrina do pecado original. A pessoa se sente pecadora e não sabe como expiar o pecado ou como se perdoar, pois às vezes nem sabe o que fez. Ou pensa que é indigna porque acredita que o que fez é irreparável.

Muitas vezes, a raiz tem origem na infância quando os pais, parentes, professores ou educadores religiosos tratam os erros como grandes problemas. Isso pode causar sentimentos de culpa que não tem base real.

Práticas do yoga são como remédios

A Filosofia do Yoga nos ensina como purificar nossos pensamentos, palavras e ações. Como evitar e purificar as transgressões, libertando dessa culpa tóxica.

Muitas práticas yóguicas são purificadoras como a repetição diária de mantras, o canto dos mantras, meditação e o serviço altruístico e desinteressado. São práticas consideradas como remédios eficazes para dissolver os sentimentos de culpa.

Precisamos saber lidar com nossa mente, purificando-a da culpa tóxica para aliviar a dor que ela nos causa. Precisamos nos libertar dos sentimentos acumulados de culpa que nos prendem aos erros e transgressões, pois causam pensamentos e sentimentos negativos desproporcionais e sem valia.

É importante aprender a reconhecer os sentimentos de culpa tóxica e livrar-se deles para não ficar com baixa autoestima, se sentir mal ou sem valor.

Culpa é uma bagagem pesada e você não quer carregá-la, portanto,livre-se dela. Não alimente esse tipo de culpa dominante. Não fique se torturando por algo que fez. Não permita que o peso dos seus sentimentos de culpa o deixe paralisado.

Repare seus erros. Conserte o que fez. Peça perdão e desculpas. Decida mudar seus comportamentos antiéticos. Não queria mudar os outros. Mude a si mesmo e aprenda com seus erros. Fique em paz! Namaste! Deus em mim saúda Deus em você.

(Autora: Emilce Shrividya Starling, 

formada em Yoga pela Federação de Yoga do Brasil e Centro de Estudos de Yoga Narayana/S.P,

com aperfeiçoamento em Hatha Yoga e Meditação nos Estados Unidos.

É professora de Hatha Yoga em Santos (SP), desde 1989. www.yogalakshmi.pro.br)

(Fonte: http://www2.uol.com.br/vyaestelar/vya_quem.htm)

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