Ann Dunham é a mãe de Barack Obama. Ela ficaria surpresa ao ver seu filho na Casa Branca. Talvez ficasse ainda mais espantada se soubesse que o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, a insultou sem nunca tê-la conhecido. O boquirroto chefe do arquipélago chamou Obama de “filho da p….”. Impressionados, caros leitores?

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, fez a entrega de uma residência a uma mulher e, ao invés da fala tradicional, bradou que ela usaria muito o quarto recém-entregue para atividades sexuais intensas.

O verbo exato que ele usou não poderia ser usada num texto que entra pela soleira de casas de família num domingo pela manhã. Não foi apenas um palavrão que escapou ao edil, mas uma enxurrada de vulgaridades diante dos vizinhos atônitos e das câmeras.

Emília, do Sítio do Picapau Amarelo, tinha a famosa “torneirinha de asneiras” na boca. Seria a boneca uma profetisa de todos os Trumps da política?

Retrocedamos: Baldassare Castiglione fez sucesso no Renascimento com o livro O Cortesão. Na forma de diálogo, estabelece os parâmetros para uma pessoa ser considerada educada. A marca distintiva do cavaleiro seria conseguir, com gestos e falas, evidenciar uma superioridade pessoal sem muito esforço. A habilidade de ser elegante de forma natural foi sintetizada no vocábulo italiano sprezzatura. Ainda que possa ser lida como uma indiferença irônica e defensiva, a sprezzatura foi concebida como um código, uma maneira correta de ser nas cortes da idade moderna.

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A jovem classe burguesa tentou imitar os hábitos da nobreza. Compravam-se títulos e repetiam-se maneiras. Refinamento passou a ser cartão de acesso a um mundo considerado superior. Molière ironizou esse movimento no Burguês Fidalgo. Faltava sprezzatura ao senhor Jourdain, a ridícula personagem central da comédia. A personagem oscila entre o ridículo e o empolado. Era um fingidor. Portava uma máscara que não se adequava ao rosto. Hoje, seria chamado de emergente.

O século 20 multiplicou o esforço das classes médias e altas na busca de um refinamento que garantisse sua posição. Livros de etiqueta proliferaram. Em São Paulo, a obra de Marcelino de Carvalho tornou-se leitura obrigatória. Também eram concorridos seus cursos de etiqueta na escola Eva, na rua Augusta. A pauliceia ainda oferecia a chance de melhoria pessoal seguindo as aulas da suíça Louise Reynold, a famosa madame Poças Leitão, que ensinava bons modos e dança de salão a muitas gerações em São Paulo. Hoje é nome de simpática rua no Jardim Paulistano.

A etiqueta moderna era um canal para dizer “quem é quem”, um distintivo social, uma linguagem e um código, como a estudaram Norbert Elias (A Sociedade de Corte) e Renato Janine Ribeiro (A Etiqueta no Antigo Regime).

Gostaria de resgatar um sentido menos usual da palavra etiqueta: pequena ética. Etiqueta não seria o duvidoso valor de saber qual talher ou copo seriam adequados. A verdadeira etiqueta trata da convivência em grupo. A “pequena ética” seria uma consciência de que, mais do que atributo da antiga nobreza, a cortesia e a gentileza são fundamentais para a existência em sociedade.

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Por favor, com licença, desculpe-me e obrigado são quatro fórmulas mágicas que devem ser multiplicadas. Todas implicam reconhecer que há algo ou alguém além de mim. Saber segurar a faca corretamente na mão direita e, ao mesmo tempo, maltratar o garçom, é prova de que só se captou a parte imbecil da etiqueta. Há muito mais. Ceder lugar em transportes públicos a quem mais necessite dele, como gestantes, por exemplo. Falar baixo para não invadir ouvidos e intimidades alheias. Evitar transformar seu carro em trio elétrico nas cidades. Fugir de grosserias ofensivas como as descritas no início da coluna. Tornar o trânsito um espaço de cidadania. Respeitar o mundo ao redor não porque aspiramos à nobreza, todavia porque somos parte de uma humanidade maior, mutuamente dependente. Tudo isto assume um poder multiplicador, como garantia o profeta Gentileza no Rio: gentileza gera gentileza.

Toda a essência da nova etiqueta é a consciência da vida em grupo. Estamos em crise profunda sobre os valores sociais. A grosseria e a vulgaridade imperam, de Manila ao Rio, de São Paulo a Washington.

Educar é um esforço. Funciona pela indicação direta e pelo exemplo, este último o mais poderoso professor já inventado. A vulgaridade e o preconceito irmanam sofisticados salões burgueses e bares populares. Variam os atores, permanece o mesmo espírito tosco.

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Atrás da grosseria esconde-se alguém com duplo defeito: tem medo do mundo e dele se defende com as patas erguidas. Acima de tudo, o ser grosseiro tem dificuldade em compartilhar a alegria do convívio pois vive o isolamento e vive pleno de temores. Cortesia e etiqueta ajudam a dar alguns passos na arte da felicidade. Atrás de alguém sem noção social, existe um ser que padece e ataca para encontrar um paliativo a sua dor. Um bom domingo a todos vocês!

(Autor: Leandro Karnal)

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