Quantas vezes mais teremos que resgatar a menina abusada, violentada e sofrida que habita na alma de tantas mulheres?

Tema recorrente nos consultórios, parece que a história das mulheres tem um pano de fundo sempre o mesmo, tão terrível e perverso que embora encoberto machuca e corrói sem se mostrar por toda a vida.

O complexo está ali, latente, machucando, fazendo a menina, a jovem a mulher insegura, temente, carente, tropeçando na vida, no trabalho sem se dar conta do que tanto fere. Às vezes um evento qualquer aciona o marcador somático, aquilo que conscientemente nem sabemos, mas que está associado ao abuso e quando acontece dispara o alarme e entramos na zona de estresse. Volta um mal-estar, medo, pavor. A reação inesperada parece um pânico, gera muitas vezes uma agressividade descabida, outras uma fuga e ainda um isolamento. Seja o que for atrapalha nossa vida, nossos relacionamentos, nossa vida amorosa, nossa segurança, nossa confiança e nosso autoconhecimento.

Não há formula para se lidar com isso, cada caso é um caso, como dizia Jung. Não há teoria para todas as pessoas, cada alma carrega sua ferida e deve ser acolhida com a generosidade que o momento pede.

Mas por que são tão comuns o abuso e a violência contra o feminino? Por que a menina e a jovem possuem menos valia? Ao olhar a filha, a irmã, a sobrinha o que passa na cabeça de tantos homens já que são eles os maiores abusadores e violentadores? Claro que padrastos são os primeiros da lista. Mas o que dizer da omissão do olhar e do cuidado das mães com as filhas abusadas?

Hoje já encontramos diversos casos de avôs que abusaram das filhas e repetem o caso com suas netas. Como conseguem perpetuar o ato? Qual o papel da avó e da mãe nesta saga cruel? Em que momento o risco de expor a criança ao “lobo mau” foi esquecido? E por que?

Muitas mulheres dirão que não sabiam. Não lembravam. Mas o inconsciente sabia. Isso em relação ao pai que abusou da filha e volta a abusar da neta. E as mães que tem suas filhas abusadas por anos pelo marido e dizem que não sabiam? Como não perceber a mudança no comportamento, no corpo da filha, e tantas outras pistas que se avolumam com o passar dos anos.

O que faz a perversidade do “lobo mau” devorar a “vovozinha” para seduzir a “Chapeuzinho Vermelho” e meter tanto pavor que faz as mães se tornarem cegas, mudas e surdas?

O que traz a mulher no inconsciente coletivo como imagem do masculino que causa tanto medo que não se opõe, não o denuncia, e com isso perpetua a Imagem Arquetípica do homem com total poder sobre o corpo da mulher?

O problema é quando algumas mulheres conseguem forças para se opor o fazem de maneira tão violenta que, tomadas pelo Animus, de maneira absolutamente negativa, se tornam agressivas e masculinizadas, negando, assim, totalmente, o feminino. A consequência são as doenças psicossomáticas associadas a essa atitude, cristalizando os pontos de estresse nos órgãos femininos: mamas, ovários e útero. Sem considerarmos outras doenças também como artrite reumatoide etc. Os homens ficam com mais raiva das mulheres e ninguém ganha nada com isso. O feminino é água e não pedra.

O caminho não é reagir com as armas do masculino mas procurar no âmago do feminino as armas de combate.

Os homens são filhos de mulheres. As mães educam seus filhos. Se são machistas e desvalorizam o feminino a grande parcela de culpa está na base de educação que receberam. Sabemos que nossa sociedade atual é patriarcal e machista. Mas vamos perpetuar isto?

A educação ideal é integral, nem patriarcal nem matriarcal, mas harmônica. Valorizando a complementaridade, as diferenças, a multiplicidade. O respeito como esteio e suporte da família. Isso a mãe vai conseguir com amorosidade e acolhimento. Mostrando seu valor, sem se subjugar. Mas também sem se masculinizar.

Na atualidade, por tanto abuso e violência, muitas mulheres migraram para o polo oposto. A feminilidade cedeu lugar para algo grotesco que querem chamar de sedução, mas está muito abaixo disso, e outras se colocaram numa armadura de Animus poderoso cujo feminino está desaparecido.

Muitos homens ficaram perdidos frente a essas duas espécies. Sobraram algumas mulheres. Também vemos surgir um grupo de homens e mulheres que se recusam a assumir seu gênero, sobre isso já falei em outro artigo. Marie Louise von Franz trabalha sobre isso em algumas obras. Resta a nós no espaço sacrossanto de nossos consultórios encontrar nas almas o seu sentido, o seu significado, porque a consciência se perde em hedonismos e modismos, mas a alma, Ah! A Alma, essa é eterna e não muda tão facilmente….

Mulher abusada, violentada e sofrida, acolha sua menina e resignifique sua vida.

O passado foi um tempo curto que ficou para trás, o futuro pertence a alma e essa é eterna.

(Autora: Dra E. Simone Magaldi)

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