Sempre preferi jogar Mário Bros a brincar de Barbie. Não me fascinavam os vestidos brilhosos, as coroas de plástico e os castelinhos em miniatura. Gostava de games, livros de aventura e sempre tive cabelo “joãozinho” porque fazia menos calor e dava pra lavar todos os dias.

Admito que, às vezes, saía na mão com moleques arruaceiros que se achavam no direito de me paquerar (mesmo eu ainda nem sabendo direito o que significava) ou que me dissessem qualquer coisa que eu não gostasse.

Nunca esqueci o primeiro menino que me chamou de gostosa. Ele tinha uns dez anos e um rosto enferrujado, apesar de não ter cabelos ruivos. Voltou pra casa com cinco dedos marcados nas bochechas sardentas, coitado. Até hoje, provavelmente, deve pensar duas ou três vezes antes de chamar uma mulher assim.

Gostava de acompanhar meu pai na barbearia ou nos botecos onde ele jogava sinuca. Chupava balas de hortelã e observava as pessoas: os homens que passavam giz nos seus tacos enquanto se vangloriavam uns para os outros – porque se vangloriar era realmente mais importante do que ganhar, e isso era evidente até para uma menina de nove anos como eu – os bêbados inofensivos e solitários, os donos que serviam cachaça aos clientes com uma cara de quem adoraria já ter encerrado o expediente.

Os adultos amigos dos meus pais apertavam menos as minhas bochechas do que as das outras crianças – porque eu vivia de cara emburrada e isso funcionava para espantá-los – e dificilmente me chamavam de “princesinha”. Meu pai, aliás, dizia com orgulho que eu era seu molequinho porque preferia acompanhá-lo em programas de homem do que assistir desenho animado.

Por essas e outras razões, nunca tive vocação pra princesa. Nunca aprendi a ser doce, não sei fazer bolo e não sou minimamente fashion – e olha que eu melhorei muito nesse quesito nos últimos anos.

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Detesto jogos amorosos, não tenho mais que duas peças de roupa cor-de-rosa e nunca sonhei em me casar de branco. (Nunca sonhei em me casar de cor nenhuma, na verdade, mas a vida tem dessas coisas).

Aprendi, desde cedo, a me sustentar. Nunca quis ser a princesa que ganha roupas e jóias caras do príncipe que lhe venera – e hoje falo o que penso e bebo às minhas custas, graças a Deus. Nunca quis um príncipe que me endeusasse. Sempre me atraiu mais um cara qualquer que compreendesse minhas frustrações, minhas loucuras, minhas esquisitices. E que fosse esquisito também, de preferência.

Não me interessa ser conquistada, venerada ou posta num altar. Por isso não me venha com elogios prontos, apelidos no diminutivo, buquês cheirosos, caixinhas de bombom e anéis de noivado. Não espere de mim doçura, delicadeza e mãozinhas finas de quem nunca precisou pegar no pesado.

Felizmente, ou infelizmente, não cresci num mundo encantado nem num castelo de mentiras. Eu gosto é da verdade. E se você puder me oferecer a verdade – mesmo que ela não seja bonita como nas histórias de felizes para sempre – será realmente mais valioso que qualquer chocolate caro que você possa ter pensado em comprar.

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Um mundo real, com pessoas reais e sentimentos reais – e não joguinhos de conquista mal-encenados – que tenha homens suficientemente corajosos para assumirem que não são príncipes coisíssima nenhuma. Onde eu possa ter as unhas curtas e usar roupas mais confortáveis que bonitas. E viver ao meu modo, como protagonista de uma peça que nunca vai estrear, porque a vida é melhor na coxia.

É isso que eu quero pra mim. Eu não espero um príncipe que me liberte: como a mais autêntica não-princesa, eu posso ser livre pelos meus próprios esforços.

Obrigada, meu pai.

(Autora: Nathalí Macedo)
(Fonte: eoh.com.br)
* Texto publicado com a autorização da administração do site

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