De repente chegou o tempo que parecia nunca chegar.

Os cabelos ficaram brancos, a barba antes enegrecida ganhou contornos claros, bem claros.

O rosto antes naturalmente esticado tornou-se rugoso, naturalmente rugoso.

Foi como um salto quântico.

Olhou-se no espelho e, de um dia para outro, não se reconhecia mais.

Estranho como até mesmo o olhar não parecia o mesmo. Antes altivo e confiante, ora tímido e acanhado.

A vida passou tão rápido como nunca imaginara passar.

Sorte a sua, deveria pensar, sinal de que viveu, amou, decepcionou-se, aprendeu. Mas ainda não estava satisfeito com aquilo que lhe parecia o fim.

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Impressionava-se consigo próprio, posto que seu coração era gigante e não se conformava com o triste fim que se prenunciava.

Em algum momento, em algum lugar, em algum ponto de sua história, perdeu-se de si mesmo e, agora, debalde, tentava reencontrar-se.

Mas sim, pensava, ainda era tempo, posto que seu coração pulsava como o de um menino, a sua vontade vibrava tanto quanto na juventude,

Não, definitivamente não, a vida não poderia ser só isso, tão previsível e melancólica.

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Quando foi que parou de se encantar com o universo que o rodeava? Em que local ficou preso o seu olhar?

Sim, há tempos não mais notava os pássaros fazendo algazarra em sua janela, as flores que coloriam o seu jardim…

As crianças que passavam correndo, transbordando alegria à saída dos colégios do mundo, as maritacas que faziam escândalos por onde passavam.

As estrelas que pintavam o céu em noites especiais, a lua, estrategicamente posicionada para iluminar os sonhos mais românticos das madrugadas.

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Ah, o sol… não poderia se esquecer, jamais, do sol. O sol, astro rei, captando energia para a terra, tocando o seu corpo franzino durante todas as manhãs de todos os dias de sua vida.

Como poderia ter esquecido de agradecer pelo sol?

E, agora, que tudo parecia terminar, sentia uma solidão muito forte dentro de si.

Começou, então, a agradecer por cada gota de água, de luz, de pequenas felicidades que se desenhavam no entardecer de sua existência.

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E, então, a vida soprou um vento doce e suave.

E os últimos anos foram, sem dúvida, os melhores vividos.

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Regiane Reis
Mestre em Direito Constitucional. Autora do livro "O empregado portador do vírus HIV/Aids". Criadora do site pausa virtual. "Buscando o autoconhecimento, entendi que precisava escrever sobre temas universais como a vida, o amor e a fé". É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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