“Esta mulher que aparece em meu sonho, veja bem, ela não é minha mãe.” Diante de esforços espontâneos por negar algo Freud argumentava tratar-se de uma denegação, cuja leitura desde o inconsciente sugere exatamente o contrário. Existe uma política das negações em psicanálise que nos ensina a levantar suspeitas sempre que alguém coloca intensidade ou veemência demasiada na negação de algo. É nisso que um “não quero te ofender, mas …” prenuncia uma ofensa vindoura e que aquele que exagera em dizer que seus comentários são pessoais geralmente trai sua ambição de conquistar as massas. Um análogo contemporâneo da denegação clássica pode ser encontrado nesta fórmula cada vez mais insistente no interior das relações amorosas: “preciso de um tempo só para mim”. Cada vez que escuto tal fórmula me pergunto o ponto de auto-engano, que o sujeito recusa assumir, em sua relação com o Outro. Ela pode selar o encerramento de um casamento, anunciar uma pausa estratégica na relação ou aliviar a brutal tradução por“não te amo mais”.

Há três situações diagnósticas que costumam produzir tal declaração, correspondendo a três maneiras distintas de negar o tempo: depressivos, neuróticos obsessivos e jovens mães com filhos pequenos. Na depressão este apelo por mais tempo tem o sabor típico daquele que quer se curar ingerindo mais veneno. Mais tempo para desperdiçar, mais tempo para ser entregue ao grande deus do vazio ingestor de noites insones e fins de semana desérticos. Assim como o anoréxico come nada o depressivo come tempo. Mas ele não está completamente equivocado em sua demanda. Ele pede mais tempo, no sentido de certa qualidade temporal, que permite concluir sua inserção no desejo com o Outro. Aqui a tradução deveria ser: preciso de um tempo, de um certo tipo de tempo, ainda que não saiba bem do que este tempo é feito. É o tempo de separação do tempo do Outro.

Na neurose obsessiva, que tão comumente confundimos com o discurso masculino, trata-se de outra coisa. Aqui “um tempo só para mim” opõe-se a “um tempo para o outro”. Já que amar é oferecer sua presença e já que neste caso a estimativa do obsessivo é que o outro lhe pedirá o amor infinito, quanto mais ele dá mais ele se sente obrigado a dar, terminando por sufocar-se, sozinho, com sua própria especulação. Esta é a raiz do movimento pendular pelo qual é impossível estar junto de quem se ama, mas é também impossível ficar separado. Como a demanda do outro é sentida como infinita e a presença do sujeito como finita, a situação só pode terminar na insustentável e angustiante posição deficitária baseada na solidão a dois. Contudo, a separação, igualmente vivida como solidão, também é impossível porque ela gera distância e a distância gera a falta que por tua vez causa o desejo. Portanto, longe te desejo, perto sou consumido por sua demanda. Solução. É preciso de um tempo, só para mim, todo meu, no qual você não se intrometa, quer em palavras, atos ou pensamentos. Dele emergirei senhor de meu próprio tempo e soberano de minha própria falta, compreendendo o que quero. Este tempo da dominação do tempo do Outro vai dar errado, (quase) sempre.

Finalmente, entre as jovens mães acossadas por filhos pequenos o “tempo para mim” é o tempo no qual nos lembramos que um dia não fomos maternas, que nem sempre a vida resumiu-se a trocar, lavar, mamar e cuidar. Não é só o intervalo de tempo no qual não é preciso fazer nada, mas também não é necessárioser nada. Deixar de ser imprescindível, deixar de ser para, deixar de ser em um tempo que não nos pertence mais. Ele pode evoluir para o tempo morto do Candy Crush, ou para a anestesia alcoólica ou televisiva, mas no princípio ele era apenas um instante. O instante salvador de um tempo no qual a negação incide sobre o “precisar”.

(Autor: Christian Ingo Lenz Dunker)

(Fonte: edição de novembro de 2015 da revista Mente e Cérebro)

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