Parece incoerente esse título.

O prezado (a) leitor (a) poderia me dizer assim: “Ué, Vitor, eu estou com os pés no chão nesse exato momento. E mesmo que você não fale de algo literal, estou sim com os pés no chão, afinal, meus projetos e minhas tarefas são sempre muito coerentes com o que quero e com minhas possibilidades.” Sim, pode ser, mas aí é que podem ocorrer diversos autoenganos.

Muitos de nós podemos pensar que fazer o que se quer, ou que fazer o que se pode é ter os pés no chão. Porém não é necessariamente isso.

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Por exemplo, posso muito bem dizer que quero bater meu recorde de fatias consumidas de pizza em rodízio de massas. Antes eu comi trinta pedaços, agora quero comer pelo menos trinta e um. Será que isso é manter os pés no chão? Claro que isso é possível. Eu posso ficar longas horas sem comer nada e no rodízio não beber uma gota de líquido para me empanturrar. Baterei meu recorde. Mas será que era disso que meu corpo precisava? Será que era realmente essa a minha meta de vida naquele dia?

Quando falo de pés no chão é algo quase literal. Falo de estar com os pés fincados na minha realidade física, social e emocional. As condições físicas com as quais me deparo (aí falo das condições do corpo físico e das condições externas, os fatos), as sociais (necessidades familiares ou sociais com as quais estou envolvido) e emocionais (o que sinto diante das situações: me é agradável ou não almejar ou viver determinada condição? O que sinto diante disso?). Ou seja, estar com os pés no chão é estar presente no aqui-e-agora da sua existência, a cada momento.

Se eu digo que estou com os pés no chão por acreditar que não tenho capacidade para passar em um concurso público, estou, na verdade, fincado em meus receios ou em meu desejo de não tentar. Afinal, eu possivelmente poderia investir em um curso preparatório, me organizar para estudar e me dedicar, de verdade, a esse projeto. Se as condições físicas, sociais e emocionais permitem, a desistência sim que mostra uma distanciamento de si mesmo.

Muitas pessoas sofrem por acreditar ou temerem coisas que não se mostram na realidade concreta delas. Tenho medo de deixar de amar de alguém com quem me relaciono, ou acredito que meu amigo está chateado comigo porque ele visualizou e não me respondeu no Whatsapp.

Acredito que não vou fazer um texto interessante ou tenho medo de não conseguir a nota necessária para passar de ano. São inumeráveis os sofrimentos gerados por hipóteses, e que não se baseiam na realidade concreta da vida, ou seja, nos fatos e em meus sentimentos.

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Buscar estar com a vida amparada no presente, no aqui-e-agora, é uma postura que exige coragem para assumir as coisas como são, e sensibilidade para percebê-las. Entretanto é algo muito possível para todos. Práticas como meditação, psicoterapia, entre outras, auxiliam muito nisso.

Pôr os pés no chão não é só aterrissar das nuvens. Mas é também o que melhor permite um verdadeiro voo.




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