Comumente nos deparamos com pessoas que se queixam de depressão, de uma inquietação da alma que muitas vezes não compreendem. É grande o número de pessoas que sofrem e não conseguem oferecer sentido à vida. Mas de onde emerge essa disfunção tão enigmática que assola milhões de pessoas?

A TV e outras mídias parecem inofensivas no seu conteúdo de entretenimento, comercias e propagandas. Porém, é esse mesmo conteúdo que nos massacra diariamente. Sempre fico intrigado com o modo muitas vezes apelativo dessas construções que vão sendo arraigadas na mente coletiva.

Um exemplo típico desses comerciais: a família feliz que senta na deslumbrante mesa para tomar seu café da manhã, apreciando o gosto da margarina, a já famosa “família de comercial de margarina”. Ou o rapaz cheio de vida que se sente extremamente bem-aventurado ao comprar um carro novo, simbolizando o infalível. Até mesmo produtos que prometem a felicidade, bastando apenas abrir a garrafa. Resumindo, se no café da manhã de sua família não houver a margarina daquela determinada marca, se você não tiver recursos financeiros para comprar um veículo novo, ou não sentir a felicidade ao beber uma Coca-Cola, consequentemente você estará caminhando para o fracasso.

Na era da informação que vivemos, parece não haver um ideal de felicidade interna. Freud já nos dizia: “A felicidade é um problema individual. Aqui nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”. Porém, não é isso que vemos no dia a dia. As pessoas estão gradativamente partindo-se em vários pedacinhos para se encaixar a todo tempo em algum determinado lugar, no contexto, no grupo, fazem de tudo para serem aceitos. Quando o medo e insegurança gritam, tornam-se potencializadores dessas contingências.

Quantas vezes não vestimos aquilo que gostamos ou não falamos sobre a preferência sexual por conta da opinião alheia? Quando compramos coisas para nos sentir aceitos? Isso é estilhaçar-se gradativamente para caber em caixinhas prontas. Na busca do encaixe, vamos aos poucos perdendo partes de nós mesmos.

Assim, não é difícil perceber que as perdas dos nossos pedaços progressivamente nos leva a uma defasagem da potência do viver, do sentir e do ser. Os meios de comunicação vendem coisas que nos afastam de nossa verdadeira essência, são formas simbólicas que engolimos e estão fora daquilo que realmente precisamos. Na tentativa de buscar a felicidade acabamos encontrando depressão, uma vez que aquilo que é vendido não pode garantir a felicidade.

Nesse contexto, também são inúmeras as cobranças que devemos viver uma vida equilibrada e perfeita. Porém, encontrar consolidação em tudo também é um caminho para infelicidade. Não há problemas se partes de sua vida não estão exatamente como você gostaria. A propósito, buscar essa vida idealizada, de que tudo tem que estar como é vendido e cobrar-se por isso já é uma forma de angústia.

Fazer um acordo de coexistência pacífica com o tempo é essencial para uma mente tranquila, nem ele te persegue, nem você foge dele, um dia vocês se encontram. Tudo acontece quando precisa acontecer, não temos o controle de nada nesse mundo.

Em outros tempos oferecia-se a ideia de salvação através do conceito de paraíso após a morte, a vida era encorajada pelas lágrimas, culpas e autoflagelação do qual se esperava a salvação. Atualmente ainda nos deparamos com isso, todavia cada vez mais podemos aferir que isso trata-se de um delírio coletivo de redenção. Antes buscávamos salvação através do sofrimento, hoje parece que buscamos a mesma salvação através do consumismo desenfreado e das formas idênticas e não singulares do viver.

Cabe a cada um ser feliz nessa vida, no agora. Não se quebre em pedaços, aproxime-se mais de você, busque sua individualidade e se permita ser quem gostaria de verdade. Inteiro. Tudo bem se ainda não pode comprar aquele carro do ano ou aquele sapato que tanto deseja. Com certeza você é mais que isso.

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Filipe Marson

Psicólogo. É colunista do Fãs da Psicanálise.



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