Inicialmente vou definir com nitidez o núcleo central deste texto. Ou seja, em que moldura se encaixam os casos a serem analisados. Vou centrar em situações relativamente frequentes em minha casuística: um estado passional agudo por um lado e concomitantemente, por outro, a possibilidade de desfazer-se um casamento que se mantinha em bons termos até uns 80% do tempo de sua duração, cerca de dois anos atrás.

O que pode ocorrer quando um dos membros de um casal sente-se atraído e apaixona-se por outra pessoa, a atração da paixão aguda. Via de regra é uma paixão recente, com um a dois meses de duração.

Isto é fundamental : um fato, a paixão aguda, podendo levar a descasamento; são quadros bifatoriais. Se a abordagem fosse para as separações dos casais em si, os raciocínios que se seguem não fariam sentido.

Há separações saudáveis e com os envolvidos muito conscientes delas, apesar de compreensível sentimento de dor pela separação; e há também segundas ou terceiras tentativas sensatas e maduras, pela dificuldade crescente da convivência em si (sem o fator de uma vivência passional paralela).

O campo de estudos e entendimento seria outro e não este que apresento agora. Mirem o título e não o esqueçam, pois é uma abordagem circunscrita a ele. Em minha observação clínica a frequência com que isso ocorre é mais comum com o envolvimento dos maridos do que os casos em que é a esposa que se sente apaixonada por outro. Mas estes casos também acontecem e suas nuances, sua trama, são semelhantes.

Quem seja que esteja vivenciando tal situação deve evitar a tomada “súbita” de uma decisão, e não deve contar só até 10 para desfazer a ligação mais duradoura e assumir a novíssima: deve contar até 100, no mínimo, e passo a explicar o porquê.

Numa relação prevista para mais longo prazo – como o casamento – há muito mais variáveis do que numa relação de curto prazo. Lembremo-nos de que situação passional semelhante já foi vivenciada pelos então namorados e noivos, que se deram bem durante uns oito anos iniciais da sua convivência conjugal, após o pacto afetivo da época de namoro e noivado (o que acrescenta uma vivência adicional em média de dois anos no seu pacto amoroso).

Com o correr do tempo nestas ligações, não é raro ver que ambos os membros do casal relatam o início de se descuidar nos aspectos do trato da atenção, gestos de carinho, o zelo de um pelo outro e até um relaxamento acentuado de sua mútua apresentação estética. Isso acaba acontecendo no cotidiano, sem que os membros deste par tenham sequer consciência de que tais fatos já aconteciam num crescendo sutil.

Da parte dele, esquecem-se os abraços que até pouco tempo sempre dava a ela quando chegava à casa; aquela flor que uma vez ou outra também lhe portava deixa de enfeitar os cabelos de sua parceira; a voz mais terna vai sendo substituída por um tom mais impaciente, autoritário ou até mesmo áspero diante situações nada graves; e vai se esquecendo também de seus cuidados físicos e da prática de conversarem entre si ; e vai havendo um distanciamento físico de seus relacionamentos íntimos erótico-sexuais.

Da parte dela, seu capricho em recebê-lo um pouco mais arrumada, com pequenos toques na face, cabelos e roupa bem cuidados (ainda que sem nenhuma pompa); também vão inexistindo e com isso ela vai deixando de lado uma postura física viável no ambiente doméstico, a que se poderia chamar de uma elegância mais à vontade, às vezes displicente (mesmo com a maioria das mulheres contemporâneas trabalhando também fora de casa) que ainda se mostra sensual .

Este estar mais à vontade vai se desleixando também, como ele, na sua parte física. E, aspecto muito relevante e já apontado acima, casal vai parando de conversar entre si; e a conversação é dos mais importantes instrumentais de todas as inter-relações humanas.

Para que não se pense que a parte estética esteja sendo supervalorizada neste texto, há uma pergunta que inquieta: enquanto namorados , noivos e recém-casados, será que se apresentariam assim um para o outro? Claro que certo grau de relaxamento é natural pela convivência, mas dentro de certos limites. O que seria eventual acontecer, vai adquirindo um ritmo de moto contínuo, tornando-se habitual. A admiração recíproca vai diminuindo, mais a partir do membro do casal atraído pela relação passional paralela.

Resultado: um e outro vão se tornando cada vez menos sedutores aos respectivos olhares e começa a se instalar entre eles o que chamo de “casal morno”, situação que os vai distanciando entre si, deixando os agrados mútuos de lado e bem infrequentes seus prazeres mais intimistas. E a conversação, repito, vai se tornando coisa rara. Este quadro de maior distanciamento e desleixo pode facilmente ser confundido com um desamor sem retorno.

É nesta situação em que um dos dois descobre uma outra pessoa, por ela sente forte atração, entendem-se de alguma forma e acabam por se sentirem apaixonados. Esta nova pessoa traz o que antes era trazido pelos dois e compartilhado por ambos: atenção, carinho, interesse, zelo, cuidado em se apresentar um ao outro. E com um dado nada desprezível: como não coabitam, não conhecem hábitos, estereotipias, preferências várias, desconhecendo as diferenças entre si. Em suma, como ninguém é perfeito, esta nova pessoa não aparecerá com seus defeitos. Encontram-se para momentos exclusivamente gozosos. Um não está ainda inteiramente mais conhecedor do outro, sendo seu mútuo contato apenas parcialmente desempenhado por ambos.

A esta situação, a este tipo de ligação, Freud chamava de Relação Parcial de Objeto (ou de amor), muito tênue para se projetar, a partir dela, uma ligação amorosa de médio ou longo prazo. Faltam-lhe alicerce, estrutura para enfrentar as dificuldades inerentes a um casal saudável, onde nem tudo são flores.

Pode acontecer, sim, que esta atração inicial venha a se tornar uma relação de maior conteúdo, diria mais proteica, mas isto só poderá ser percebido ou sentido com a duração da ligação e após reflexões que não demandem pressa. E neste exato ponto faço uma inflexão pois esta última possibilidade apontada foge à proposta deste texto, uma vez que esta relação de amor já estará se transformando numa Relação Inteira de Amor; já não seria uma paixão aguda mas uma situação mais amadurecida, com os sentimentos de afetividade e admiração somados à paixão desejante.

E por que a sugestão de se contar até 100? Para que ele e ela, o casal já constituído como tal, tenham a chance de ver em que ponto poderiam melhorar, qual a colaboração de um e de outro para o mal-estar instalado. Haverá que se ter paciência e compreensão, para tentar uma reaproximação mais prazerosa, para voltarem a namorar. Este verbo é mágico, pois no fundo ambos os membros do casal fizeram, sem querer e perceber, exatamente isso: esqueceram-se de namorar.

Na maioria dos casos estudados, as situações apresentadas às consultas eram ligadas aos aspectos mais objetivos descritos acima. Em um número menor de casos, porém, poderão acontecer motivos mais subjetivos, uma vez derivados de uma fonte inconsciente.

Tentarei agora deitar alguma luz nestes últimos casos citados. Como o casal convivia bem nos primeiros cinco a sete anos do casamento, entende-se que ambos integravam em si o desejo sexual instintivo erótico e o sentimento afetivo do amor.

Quando surge a ideia da separação pelo fato de se desejar sexualmente outra pessoa, é possível a hipótese de que tenha havido – para além das causas objetivas e conscientes apontadas até agora – também uma regressão inconsciente da pessoa apaixonada por outra que não o/a cônjuge.

Regressão por voltar a um estágio menos amadurecido das relações amorosas, dissociando o componente afetivo amoroso por um lado, do componente da força instintiva desejante por outro. Estas pessoas passam a funcionar nesta área como se tivessem que optar entre uma coisa ou outra : ou se tem o afeto ou se tem o desejo.

A propósito cito uma frase do Dr.Freud constante em seu estudo “Sobre a Tendência Universal à Depreciação na Esfera do Amor “ (1912), que podem ser aplicadas quer ao homem (o mais comum à sua época) como também à mulher (mais contemporaneamente).

Ambos, se afetados por esta regressão, funcionariam no cenário sexual mais ou menos assim: “Quando desejam não amam; onde amam, não podem desejar.” Vê-se que é uma questão importante a ser resolvida por quem quer que a apresente, pois nada garante que tal situação não se repita numa segunda ou terceira tentativa de uma relação estável.

Num casamento deverão existir muitos pontos de convergência, gostos semelhantes e projetos a dois. Mas a “alma gêmea” é uma ilusão na maioria das vezes, pois é impossível inexistirem diferenças ente os componentes do casal; estas diferenças, a princípio vistas como empecilhos, podem ajudar muito numa nova estruturação do casal.

Eis alguns simples exemplos : suponhamos que ele goste mais de música clássica e ela de música pop; que eles saibam curtir seus gostos pessoais sem implicar um com o outro, sem que nenhum abafe o outro na relação a que se propõem. A mesma coisa para os variados programas de televisão, filmes, novelas, livros e culinária.

Nenhuma destas diferenças justificaria uma ruptura de uma relação de sete a dez anos de duração, começada a ser questionada apenas nos últimos dois ou três anos. É precioso conviver com tais diferenças, quando existem, pois será grande sua contribuição para uma harmonia na relação, pois cada um será testemunha de detalhes que ao outro passaria provavelmente despercebidos; com isso um enriquece o mundo do outro.

Entenda-se, nestes casos, que haja mais convergências do que confronto de gostos na maioria das áreas, o que torna viável a afirmativa do enriquecimento mútuo. Se o casal não conseguir elaborar entre si uma solução para este impasse, uma orientação especializada pode ajudá-lo a encontrar uma solução mais madura.

O envolvido pelo estado passional não deve precipitar uma solução, seja a de separar-se da até agora companheira ou de assumir a nova relação. Se houver um tempo de reflexão a respeito, poderemos ter, ainda assim, uma das duas alternativas: ou a separação ou a retomada dos novos laços conjugais.

Quando da opção pelo segundo vínculo, será fundamental um período de reflexão e um tempo de espera maiores para se assumirem com um casal. Pode acontecer, sim, que esta atração inicial venha a se tornar uma relação de maior conteúdo, diria mais proteica, mas isto só poderá ser percebido ou sentido com a duração da ligação e após reflexões que não demandem pressa.

E neste exato ponto faço uma inflexão, pois esta última possibilidade apontada mostra que esta relação de amor já estará se transformando numa Relação Inteira de Amor; já não seria uma paixão aguda mas uma situação mais amadurecida, com os sentimentos de afetividade e admiração somados à paixão desejante. Mas, seja outro o desfecho, o da continuidade do casamento, tal ocorrerá de modo mais adulto, com mais racionalidade.

Revendo reciprocamente as influências de ambos naquele mal estar conjugal, ambos mudarão de comportamento e a união entre eles poderá receber mais estímulos e se tornar mais vigorosa do que antes. Pois para continuarem juntos passaram vários pontos em que falharam, toram consciência destas falhas que dificilmente repetirão. Voltarão à prática da conversa, ao trato mais atencioso um com o outro, a cuidar mais de si para o outro, voltarão às manifestações de admiração. Muitos dos prazeres de outrora voltarão a compartilhar.

Enfim, todos este retornos resumem-se num porto seguro de chegada: o casal volta a namorar.

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Cláudio Persio
Médico Psiquiatra e Psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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