Ele acorda confuso. Ouve os pássaros anunciando o dia e senta na cama.

Primeira coisa, ele procura se comunicar. Escreve e lê emails, ele se distrai escrevendo.

Diz que tem a ilusão da comunicação com as pessoas em grupo. Ele não consegue respirar quando tem muita gente perto dele. Coitado, muita gente pode ser até, uma pessoa, dependendo da sensibilidade do dia.

Ele dá aula de Tai chi e atende como acupuntor em casa mesmo. A maioria o acha esquisito, “de lua”, metido, excêntrico, e por aí vai a ignorância e preconceito dessa sociedade insana.
Em outras “tribos” pode até encontrar seu lugar e ser aceito. Mas ele não vive em outra “tribo”, isso é mais uma utopia que o ajuda a suportar a rotina que o mantém em movimento.

Seus alunos e seus clientes são a sua terapia ocupacional Ali, diante deles, ele sente-se útil e aceito. E porque ele tem consciência de que recebe tanto, ele tem dificuldade em cobrar. Mas cobra porque  tem medo de dívida. Poderia se dizer que ele é um paradoxo. Um tipo de anjo assustado diante do código de ética que rege a humanidade.

Ele tem dificuldade em aceitar a realidade como ela é. Ele já quis mudar o mundo e já ajudou muita gente boa e aproveitadores. Por isso “gente” é um “bicho” que o aterroriza. A menos que estejam abertos pelo amor ou pela Dor. Em sua experiência, as pessoas são mais verdadeiras na Dor e no Amor. Não o amor romântico, mas no “amor-gesto”.

Mesmo assim, sentado em sua cama, ainda confuso, lembra que vai dar aula e que de tarde vai encontrar aquele senhor que o olha com gratidão. Ele quase sorri, levanta-se, pratica um pouco e vai obstinado para chegar ao local de atendimento, onde ele, mesmo que por algumas poucas horas, sente-se pertencendo ao mundo.

(Autor: Saharo Kaiku)

(Fonte: http://corpoinconsciencia.com/2014/12/10/um-dia-de-um-terapeuta-psicotico/)

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