Das diversas causas possíveis para os desgastes nos relacionamentos, existe uma em especial que é devastadora.

Refiro-me aos ciúmes. Sim, e ele vem quando de alguma forma imagino que minha companheira (ou companheiro) corre algum risco de “ser de outra pessoa”. Por exemplo, quando a parceira está próxima daqueles seus amigos mulherengos. Ou quando tem uma manifestação de carinho de um ex-namorado. Enfim, diversas são as ocasiões em que esse vilão pode aparecer nos relacionamentos. Ah, e na maioria das vezes ele não tem nenhum fundamento na realidade.

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Até certo ponto, isso é tolerável, e alguns dizem ser saudável, por ser um cuidado. Se me relaciono com determinada pessoa, é natural que eu queira participar mais da vida dela. Isso significa inclusive estar próximo dela quando está em contato com “aquelas pessoas”, não para tomar conta do que é seu, mas para acompanhá-la como namorado ou marido.

Entretanto, em muitos casos o que era pra ser um cuidado, vira desespero pela posse. Acontecem discussões, com o parceiro ou com terceiros, e até mesmo agressões. Mas o contrassenso do ciúme é que você olha para o seu parceiro como se fosse seu inimigo naquele momento. Quer agredi-lo porque a fulaninha deu um presentinho para ele. E ele permanece ali, ao seu lado, fiel, amoroso, atencioso. Mas não importa: naquele momento ele merece todas as broncas por ter aceitado. Ele ter sido educado com a fulaninha é algo visto quase como uma afronta.

Por essas e outras, o ciúme é um grande peso no relacionamento. Dói em quem sofre pelos ciúmes da companheira, e dói para quem o sente. Quando ele passa e a serenidade reaparece, vem o arrependimento. Ele é tal como uma corrente que, ao aprisionar o outro, me aprisiona também, pois quem está na ponta de cá da corrente sou eu. Prendo o outro, mas também me sinto preso nesse mesmo dever-ser.

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Tal como uma criança, que por tanto ter caído no chão acaba desenvolvendo um melhor equilíbrio para andar, quando a pessoa cansa de sentir ciúme os meios para superá-lo aparecem. Não há dor que não possa ser superada – mesmo que a longo prazo – quando a pessoa se resolve por fazê-lo.

O ciúme só ocorre por medo de que o companheiro me deixe. Em nome desse medo eu me entristeço, me magoo, agrido. Ao mesmo tempo, me inquieto por saber o que o companheiro está fazendo, exijo comportamentos, e moldo os meus também. Não me permito ser livre, também pelo medo de perder a companhia da pessoa.

Quando a dor do ciúme incomoda mais que o medo de “perder” a pessoa, chega, de forma natural, a hora do basta.

A outra pessoa é, assim como você, um ser livre para escolher e agir. Faz parte da natureza humana. Quando eu penso que o outro não é livre – inclusive para escolher não estar mais comigo e estar com outra pessoa – na verdade me relaciono com um OBJETO, e não com um ser humano. Um objeto não é livre pra escolher. Até mesmo animais fazem escolhas, quem dirá homens, dotados de razão. Se relacionar com uma PESSOA, significa se relacionar com alguém que ESCOLHEU estar com você. Ou seja, ela pode escolher não estar mais com você um dia.

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Sim, pode ser muito difícil imaginar a possibilidade em alguns casos, mas calma. Eu não disse que ela vai fazer isso. Só que ela tem essa possibilidade, e sempre terá. Mas também é importante deixar claro que se sentir livre ao lado de alguém é algo que faz muito bem. Tão bem que, pasme, é difícil querer ir embora.

Enfim, o ciúme é algo destruidor, mas principalmente para quem não compreendeu que, se relacionar é estar com alguém livre pra escolher o que fazer, com quem andar, e se quer continuar no relacionamento. Compreender isso é perceber que cada dia em que a pessoa escolhe permanecer do seu lado é uma dádiva e uma honra. Sim, estar com uma pessoa, e não com um objeto, é uma grande honra. Tudo há de se tornar mais leve e bonito com esse livre toque de humanidade

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Vitor de Moraes Silva
Psicólogo, reside no Rio de Janeiro e é colunista do site Fãs da Psicanálise.


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