Eu sei que o que mais se tem falado é que os amores se tornaram líquidos e descartáveis. Teorias reforçam que os amores não são mais concertados, apenas jogados fora. Talvez elas se devam à excessiva amostra de que o amor parece existir em um dia e já no outro, desapareceu completamente.
Mas, diga: não é interessante quando nos deparamos com um amor que resistiu ao tempo?

Presenciei outro dia, feliz, à surpresa de um marido para sua esposa, no dia do aniversário dela. Ele saiu sob um pretexto qualquer e voltou tempos depois, com um lindo bolo confeitado nas mãos. Que surpresa mais amorosa, não é? Parabenizei a ela, e a ele, comovida pela beleza daquele gesto bonito. Duas décadas depois de unirem-se, eles continuam juntos, no verdadeiro e mais amplo sentido destas palavras.

Eu diria que amores resilientes são algo um tanto quanto raro, mas não podemos dizer que já não existem. Em algum lugar, lá estão eles, bem guardados e escrevendo um felizes para sempre que ficará na história.
A felicidade, embora não seja uma coisa contínua, ainda acompanha muitos casais. Os gestos carinhosos no dia a dia ainda estão presentes em muitos lares. O cuidado, a proteção, os pequenos agrados ainda existem e continuam lindos, diga-se de passagem.

A verdade é que a maioria dos amores realmente não consegue se manter intacta. Algumas dores, desafetos ou desencontros podem ser fatais. E isso não é uma realidade difícil de ser vista. Histórias de amores desfeitos existem aos punhados, mas em nada representam fracasso, que fique claro. Apenas dizem que o sentimento não nasceu para ser infinito.

Por quanto tempo o amor é capaz de sobreviver? Afinal, amor não vem com etiqueta de data de validade. Alguns, de tão líquidos, serão bebidos em um fim de semana qualquer. Outros, são chuva de verão, pois se precipitarão para um fim repentino. Mas alguns, os mais encantadores, sobreviverão para contar aos outros que paciência e persistência são capazes de alcançar o aparente inalcançável.

O poeta diria “que seja infinito enquanto dure”. Dure meia vida ou uma vida inteira, que tenha a capacidade para fazer feliz e completar os dias de quem se dispôs a entregar seus melhores sentimentos a um outro alguém. Que seja amor!

É uma dádiva ter a quem amar. Muito embora as diferenças nem sempre sejam fáceis de serem suportadas, o amor encontra sua justificativa quando os prós superam os contras. Quando se vê um casal que atravessou décadas juntos, não se deve imaginar que os dois não tiveram desafios. Ao contrário, o que os diferencia é justamente a capacidade enfrentá-los, de gerir as diferenças e aproveitar as afinidades em favor. A durabilidade de um sentimento está justamente na arte de administrar conflitos, particularidades e até mesmo algumas manias e “defeitos”.

A respeito disso, a maravilhosa Clarice Lispector diria: “Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.”

Amores são portos de chegada e feliz daquele que tem onde aportar, seja por um ano ou pela vida inteira.

Imagem: (Mukesh Mohanty)

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Alessandra Piassarollo
Administradora por profissão, decidiu administrar a própria casa e o cuidado com suas duas filhas, frutos de um casamento feliz. Observadora do comportamento alheio, usa a escrita como forma de expressar as interpretações que faz do mundo à sua volta. Mantém acessa a esperança nas pessoas e em dias melhores, sempre! É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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