O Patinho Feio é um conto de fadas escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen, publicado pela primeira vez em 11 de Novembro de 1843.

O conto trata da historia de um filhote de cisne que foi chocado por uma pata. Sem saber de sua verdadeira identidade ele passa a ser hostilizado pela família e por outras aves. Após muita humilhação decide ir embora e durante essa jornada rumo à descoberta de sua identidade é também humilhado e mal recebido. Após o inverno ele vai nadar no lago quando se reúne com um bando de cisnes e é reconhecido o mais belo.

Esse é um conto extremamente emocionante e que já foi adaptado em um curta metragem da Disney em 1939.

A história emociona a todos, pois mostra a busca de identidade e de pertencimento, algo que em determinado momento todos já sentimentos e maior ou menor grau.

A empatia forte e duradoura causada por Patinho Feio é devido ao fato de traduzir muito bem a angustia infantil.

Em termos bem concretos e realistas, esse conto refere-se a uma criança falsamente apresentada como legítima. Mostrando a falta de adaptação à família e a sensação de insatisfação e não pertencimento, até o momento em que encontra a sua verdadeira família de origem.

Mas crianças que são legitimas podem ter o mesmo sentimento de inadequação do patinho feio em sua família de origem.

Na animação da Disney vemos claramente a angustia de uma criança mediante a separação dos pais. É extremamente comum a criança tomar para si a culpa pela separação. Assim como na animação, já vi em alguns casos clínicos a mãe literalmente culpar a criança pelos infortúnios, pela sobrecarga de responsabilidade e por ter que sustentar a casa sozinha, após a separação. Isso gera uma alienação semelhante a do Patinho Feio.

Mas mesmo que não ocorra a separação em um nível mais sutil e simbólico o Patinho Feio age, em maior ou menor grau, na experiência de toda mãe e filho.

Corso (2006), fala da fantasia que ocorre entre o feto que se avoluma no ventre materno e o bebê que é entregue nos braços da mãe. Há sempre uma espécie de decepção (seja ela sutil ou não), após a expectativa criada pela mãe em relação ao seu bebê.

“O volume do ventre materno é preenchido pela fantasia do filho perfeito, já o bebê que sai, como dizíamos, é o patinho feio. A mãe precisa olhar, reconhecer e adotar esse recém nascido como seu filho (Corso, 2006).”

Esse vinculo que existia entre a mãe e o feto na barriga agora precisa ser reconstruído fora e mediante a aceitação do bebê como ele é. Até porque, a mulher também precisa se reconhecer no papel de mãe.

A história do Patinho Feio também mostra que mesmo no lar que recebe o bebê de forma mais amável e alegre possível, existe certo nível de hostilidade.

No conto original, o patinho ao sair de casa, interpreta todos os atos, que eram até benéficos, ou sem intenção, ou instintiva apenas, como ações agressivas contra ele.

O Patinho então se sente uma vitima constante e paranóico. Ele pensa que ele sofre e que ninguém faz nada por ele.

Na infância esse sentimento é muito comum, no entanto, se esse sentimento de eterna vitima, persiste na vida adulta, mostra um ego imaturo e que ainda é vitima de humores e emoções instintivas e primitivas.

A história do Patinho Feio também nos fala do problema ser diferente. Todo aquele que é diferente e que se destaca do “bando” acaba sofrendo bullying, assim como o patinho.

No entanto, apesar de termos um substrato comum, que Carl Jung denominou inconsciente coletivo, somos seres distintos um dos outros. Apesar de todos termos um nariz, dois olhos e uma boca, não existe um rosto igual ao outro.

E é essa diferença que nos impulsiona para o processo de individuação.

E conforme Carl Jung (2008), a busca da individualidade (que é o tema do conto), é uma tendência ou sentido de desenvolvimento, que se separa de uma dada coletividade. E esse desenvolvimento da personalidade é simultaneamente um desenvolvimento da sociedade. A repressão da individualidade pela predominância de ideias de organizações coletivas significa a decadência moral da sociedade.

Então o conto mostra, em um nível simbólico, não só o desenvolvimento da individualidade individual do patinho, mas também de uma família e uma sociedade.

Ao final do conto, o Patinho se descobre um belo cisne e encontra o seu grupo e uma mãe e irmãos que o aceita.

Ele não só descobriu seus dons bem como passou a ser aceito. Ele encontrou seus semelhantes. Na verdade, ele transformou o seu entorno e a sua família. Por isso, a descoberta de sua individualidade, também mobiliza os outros nessa descoberta.

Outra coisa importante é o símbolo do pato. O pato é um animal fronteiriço, ele vive tanto na água quanto na terra. Ele é, por isso, um mediador entre os dois mundos: consciente e inconsciente.

O cisne é um animal que simboliza a fidelidade, a origem da vida e dos seres humanos, alternando entre o elemento feminino fecundado ou o elemento masculino fecundador.

Portanto, podemos observar no conto O Patinho Feio o processo de individuação e o encontro com a totalidade, representada pelo cisne. Já que ele sintetiza as duas luzes, solar e lunar, se mostrando um ser andrógino.


E essa é a meta do processo de individuação: o equilíbrio dessas duas luzes, dessas duas forças: masculina e feminina.

É claro que essa pequena analise não alcança a profundidade do conto. Cada vez que se lê um conto de fadas mais detalhes aparecem. No entanto, podemos sentir e conhecer, com o Patinho Feio o caminho para a solução da angustia. Ele mostra que nada se pode fazer sem um esforço, e que não se pode progredir sem passar pela noite escura da alma e sem encarar seus medos. Só assim é possível encontrar nosso valor interno e renascer.

(Autora: Hellen Reis Mourão,é analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas. Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ)

Referencias bibliográficas:

CORSO, D. L. & CORSO, M. Fadas no Divã – A psicanálise nas historias infantis. Porto Alegre. Artmed: 2006.

DIECKMANN, H. Contos de fadas vividos. São Paulo: Paulinas, 1986.

JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. 21 ed.Vozes. Petrópolis: 2008.

VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.

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Hellen Reis Mourão é analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas. Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

5 COMENTÁRIOS

  1. Muito sensato o texto, a quem interessar o livro ” A psicanálise dos contos de fadas” de Bruno Bethelheim, elucida de forma mto esclarecedora sobre.os todos os contos des fadas .

  2. Boa reflexão. Gostaria apenas, se possível for, que a autora descreva melhor o que quis dizer com o seguinte trecho: “a repressão da individualidade pela predominância das organizações coletivas…”
    Porque acredito que seja o contrário: a valorização da individualidade enquanto modo de vida, neste momento contemporâneo do capitalismo, gera competições em níveis alarmantes que destroem qualquer compreensão do coletivo e/ou do social.

    • oi kamyla tudo bem ? eu interpreto como a pressão do “homem sociedade” impor suas regras éticas, padrões diversos seja de beleza, sucesso, felicidade. Pensei assim

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