Algumas pessoas encaram a automutilação como uma frescura ou como forma de chamar a atenção dos familiares, amigos e colegas que cercam o indivíduo. No entanto, esse ato pode ter relação com transtornos e situações graves que precisam de acompanhamento psíquico e, por vezes, psiquiátrico a fim de evitar danos maiores a pessoa.

A automutilação, também conhecida como “cutting”, é entendida como uma ação de autolesão voluntária em que a pessoa – na sua maioria das vezes consciente – faz cortes e machucados em seu corpo em busca de um alívio emocional momentâneo às dores, medos, frustrações e outros sintomas que sente. Contudo, pode acontecer de uma pessoa fazer a automutilação por sentir prazer na dor, o que pode caracterizar um transtorno psíquico.

Os profissionais das áreas psi(s) definem a automutilação como uma conduta na maioria das vezes intencional que envolve a agressão ao seu próprio corpo, mas sem a intenção de ter ferimentos graves ou tirar a própria vida. A psicanálise tende a entender a automutilação como uma forma de descarga pulsional, onde nem sempre é possível apreender outros significados.

Comumente, entende-se que a pessoa está transformando as dores emocionais ou o sofrimento psíquico em dores “reais”, físicas e que podem ser observadas com o olhar. O que antes era sentido apenas em “sentimento” ou “mente” passa a ser percebido no corpo fisicamente e a partir disso o indivíduo sente um alívio momentâneo.

Esse ato costuma acontecer por diferentes motivos que geralmente são difíceis de serem compreendidos no âmbito social ou cultural, porém através da psicanálise é possível ter uma compreensão ampla sobre a questão do sujeito e seu sintoma. Entretanto, existem episódios de automutilação em que o indivíduo é estimulado não apenas por essa busca de alívio emocional, mas também como forma de expressar alguma frustração ou de mostrar que precisa de ajuda para lidar com determinadas questões.

Na psicanálise não existem motivos padrões que levam uma pessoa se automutilar, mas conforme as incidências de automutilação são divulgadas é evidente uma relação entre esta prática e as dificuldades em lidar com questões sociais, frustrações ou medo.

Além disso, também existem casos em que os traumas como assédio, morte de entes queridos e outros são os responsáveis por desencadear os machucados no próprio corpo, pois são situações que geram estresse e dificuldade de entendimento e construção de sentido.

As causas psicológicas também estão entre os motivos, assim como os transtornos de ansiedade, depressão e até o de personalidade borderline (TPB) – que tem sido abordado pelos profissionais com mais frequência nos últimos anos – e o uso excessivo de substâncias químicas que podem levar a dependência do indivíduo.

O profissional que atende casos de automutilação deve perceber e trabalhar os motivos que levam o paciente a realizar uma autolesão voluntária. Ou seja, permitir que sejam identificadas as dores, frustrações ou medos que se relacionam com os ferimentos no corpo. Pela Psicanálise, as descargas pulsionais podem encontrar caminhos diversos, por isso, não precisam se repetir pela via do sofrimento.

O trabalho psíquico pode ser realizado por psicanalista ou psicólogo, mas, por vezes, é necessário a acompanhamento médico (psiquiatra), já que a via medicamentosa pode ajudar a diminuir sintomas de ansiedade, depressão ou compulsão, que podem estar atrelados à automutilação.

Mas é importante ressaltar que a via medicamentosa não deve ser considerada como tratamento isolado, pois é necessário que o paciente compreenda o que acontece com ele e por que age dessa ou daquela forma. Os motivos que desencadeiam o ato de automutilação devem ser tratados de forma eficiente e sem riscos a integridade do paciente.

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Elizandra Souza
Psicóloga, psicanalista, mestre e doutoranda. É presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo.

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