Rebeldia, agressividade e temperamento extremamente difícil: estamos falando das crianças que convivem conosco, dentro de casa.  Parece estranho e talvez cause incomodo tratar desse tema, mas há ocasiões em que os filhos provocam sérios problemas aos seus pais, que se veem sobrecarregados e pressionados pelos comportamentos que apresentam.

Quando a relação entre pais e filhos é deteriorada, talvez estejamos diante de filhos tóxicos, também conhecidos como tiranos.

Quando o local que deveria simbolizar um lar se transforma em um ambiente hostil, os pais já começam a suar ao vislumbrar entrar pela porta de casa. Eles sabem que do outro lado estará um filho exigente, tirano, hostil e que tentará subjulgá-los para que façam o que ele quer. Mas quanto mais os pais tentam se impor, mais o filho fica na defensiva.

Não se deve confundir filhos tóxicos com aqueles que mantêm condutas próprias de sua idade e fruto de uma rebeldia totalmente natural. Por isso, existem algumas características que, se estiverem presentes, devem ser cortadas pela raiz, pois os limites são necessários para evitar que os filhos se transformem em verdadeiros tiranos. Neste sentido, existem limites flexíveis e tal flexibilidade sempre tem que ter um ponto em que apareça a rigidez.

Uma das primeiras atitudes a que temos que por limites são as desafiantes, aquelas que desafiam os pais a entrar em um jogo de agressividade e hostilidade constantes. A violação das normas, o não cumprimento dos castigos nem dos deveres são sinais de alerta a ter em conta.

Além disso, é necessário abrir os olhos perante qualquer sinal dele querer mandar em algum dos progenitores. O fato de lhes deixar decidir a hora de comer ou quando assistir televisão, porque senão ficam bravos ou fazem birra, é algo que não se deve permitir desde que apareça a primeira insinuação deste tipo de comportamento.

Outros sinais de alerta que não devemos esquecer são as atitudes caprichosas, a falta de empatia com os outros, a baixa tolerância à frustração e a tendência a tentar manipular para atingir seus objetivos.

Se você tem que subornar seu filho para que ele faça algo, está criando-o mal. Os filhos tóxicos são fruto de uma criação deficiente. São o resultado de não colocar limites, cair em suas chantagens e permitir que eles ostentem um poder que não corresponde à idade e maturidade.

Os pais têm o poder e os filhos pretendem competir, ganhar independência, e essa é uma tensão na qual muitos pais fracassam, pois se sentem incapazes de a sustentar. Então cedem e a tarefa passa de difícil à muito complicada.

Na maioria dos casos são os pais que causam essa toxicidade presente em seus filhos, por mais duro que possa parecer. Eles criam superprotegendo-os, não colocando limites, acreditando ser seus amigos e não passando tempo de qualidade com eles, e o resultado é devastador.

Natthalia Paccola, psicanalista do site Fãs da Psicanálise, pondera nessa culpa atribuída aos pais desde que os filhos são gerados. “É preciso cautela ao falarmos sobre comportamentos familiares. Há situações em que é preciso reconhecer que uma pessoa, mesmo com pouca idade, já apresenta sinais de caráter distorcido, dissimulações e falta de caridade”, analisa.

Atribuir toda a culpa pela tirania do filho ao pai e a mãe é algo lamentável. “Não devemos falar em culpa, esses pais não erram ao fazerem o que julgam melhor para o filho. Acontece de na maioria das vezes, se excederem e darem mais do que os filhos conseguem carregar e as conquistas acabam pouco valorizadas pois não tiveram sacrifícios para alcançar a vitória e a verbalização da palavra não, acaba por gerar uma guerra dentro de casa”, explica.

No entanto, tudo isso tem solução. Uma solução mais sábia é contar com o auxílio de um profissional competente que ajude os pais a refazer esses limites e a criar estratégias para os impor. Limites adaptados à situação, ao nível de maturidade da criança ou adolescente e direcionados desde o princípio para comportamentos concretos.

Assim, os pais devem começar a criar limites claros e coerentes que não vão poder ser questionados nem ultrapassados. É importante não tentar fazer com que eles sejam cumpridos à base de prêmios, mas que o cumprimento seja recompensado com o reconhecimento social, por exemplo.

Fazer isso com prêmios ou oferecendo recompensas poderia desencadear uma nova forma de manipulação por parte do adolescente, que só respeitaria os limites quando houvesse uma promessa prévia de recompensa.

Eles têm que aprender que nem sempre tem que haver uma motivação intrínseca para os comportamentos, que em muitas ocasiões o benefício deles está em poder realizá-los. Como ajudar alguém e se sentir útil; um benefício que, por outro lado, será muito difícil de intuir, por isso é essencial que o experimentem.

Sem nenhuma dúvida, será essencial concentrar-se no positivo e melhorar a comunicação com eles. Assim poderemos conhecer a origem da atitude que eles têm. Talvez eles se sintam feridos por estarmos muito ausentes e sua maneira de se comportar é a forma de punir nossa ausência. Vamos nos comunicar com eles e entendê-los… pois entender não tem nada a ver com ser pais permissivos.

O importante na hora de lidar com filhos tóxicos é não perder o controle. Devido a nossas responsabilidades e preocupações, ignoramos as necessidades das crianças que pedem por carinho, afeto e tempo de qualidade.

O que fazemos quando eles se portam mal para chamar atenção ou como consequência de uma criação deficiente? Os castigamos ainda mais com brigas, recriminações e frases, ou vamos ao outro extremo e reforçamos esse comportamento, dando-lhes o que eles exigem naquele momento específico.

Com paciência, amor e não evitando os desafios, ao mesmo tempo fascinantes, que a educação de uma criança nos exige, estaremos em condições de remover essa toxicidade de que muitas crianças se contagiam quando têm mais poder do que lhes corresponde.

Eles vão querer esse poder, e a nossa tarefa é mantê-lo em nossas mãos, por mais que estejamos cansados depois de chegar do trabalho ou independentemente da falta de vontade de ter que suportar uma birra. Sim, os maiores também são birrentos!

É nessas primeiras lutas que iremos começar a moldar o destino das discussões que temos com eles quando eles entrarem ou saírem da adolescência.

*Texto escrito com exclusividade para o site Fãs da Psicanálise. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.

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1 COMENTÁRIO

  1. Texto muito exclarecedor, creio que o comportamento que a crianças tinham de obedecer os pais, se tratava de uma relação de punição já estabelecida, ao contrário de esperarar ser premiado por fazer algo, como arrumar sua bagunça, se esperava ser castigado por não fazer. Queria me informar se este tipo de ensino é melhor.

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