Até esta sexta-feira (17), Flávio Kapczinski havia sido citado em 30.708 artigos acadêmicos. O grande número de menções fez com que o psiquiatra, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Programa de Tratamento do Transtorno de Humor Bipolar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) entrasse para o hall dos pesquisadores mais influentes do mundo.

O ranqueamento é promovido pela consultoria britânica Clarivate Analytics desde 2014 e coloca o porto-alegrense ao lado de 23 prêmios Nobel. Atualmente licenciado da UFRGS para realizar pesquisa de pós-doutorado na McMaster University, no Canadá, Kapczinski esteve na Capital para receber mais um prêmio por sua contribuição à ciência e falou sobre a pesquisa que o catapultou para o mundo.

Na entrevista a seguir, destaca a importância de políticas públicas estáveis para o incentivo à pesquisa e à inovação e afirma que os cortes no orçamento das universidades causarão um “dano que não será para o cientista, mas para as futuras gerações”.

Que pesquisas fizeram com que o senhor fosse citado mais de 30 mil vezes em artigos acadêmicos?
Desde que ingressei na Faculdade de Medicina da UFRGS, entrei com interesse muito grande em psiquiatria e ciência. Na época, juntei-me ao grupo de pesquisa do professor Ivan Izquierdo e trabalhei com eles na área da bioquímica da memória. Uma vez formado como psiquiatra, voltei a pensar que era possível juntar os conhecimentos adquiridos na bioquímica e nas ciências básicas com os da psiquiatria para entender melhor as doenças mentais em laboratório. Isso era algo inovador para a época, na década de 1990. Fiz mestrado, no HCPA, e doutorado, em Londres, para entrar em contato com a pesquisa na área biológica das doenças mentais e essa foi uma grande virada para mim. Quando ingressei como professor na UFRGS, estruturamos um grupo no qual aplicamos os dados que havíamos aprendido na bioquímica com o Izquierdo e transpusemos para a psiquiatria. Esse foi nosso ineditismo.

O senhor e esse grupo, basicamente, inauguraram uma linha de abordagem sobre as doenças de transtorno de humor, é isso?
Sim. Quando pensamos em saúde mental, cogitamos fazer terapia ou ter algum tipo de aconselhamento profissional. Além disso, atualmente, grande parte da população sabe que há um mecanismo biológico no cérebro que precisa ser tratado. Os problemas da mente são biológicos. Porém, há 20 anos, isso era muito menos enfatizado. Nós participamos do desenvolvimento de um novo ramo científico que é da psiquiatria biológica, ou seja, buscamos as bases cerebrais de comportamentos que causam problemas nas vidas das pessoas, como a depressão, a bipolaridade e a esquizofrenia. No HCPA, a inovação foi transpor o estudo das doenças mentais para um laboratório de bioquímica. Isso foi novo no cenário nacional, demos um enfoque original no ramo para essas moléstias. Obviamente, não foi uma jornada fácil. Entretanto, os resultados começaram a aparecer e mostramos que, à medida que uma pessoa desenvolve depressão, progridem também os casos de inflamações pelo corpo e de estresse oxidativo (que causa envelhecimento precoce, em razão da morte das células). Na ciência, nada surge do nada. Nosso grupo criou, teoricamente, a ideia de que quem sofre de depressão ou doença bipolar envelhece de forma acelerada. Posteriormente, outros grupos de estudo começaram a fazer experimentos parecidos e encontraram os mesmos resultados. Na Dinamarca, foi verificado que indivíduos que têm depressão vivem até 10 anos menos e comprovaram-se o envelhecimento acelerado e a propensão ao desenvolvimento de demência, entre outas doenças. Todas essas descobertas justificam o trabalho do nosso grupo. Nos tornamos referência por sermos um dos pioneiros nesse campo. Daí surgem as milhares de citações.

O que esse alcance do trabalho significa para o senhor?
Iniciar um campo da ciência é como erguer uma construção. Se temos a oportunidade de participar da edificação dos alicerces de algo, estes serão utilizados por pesquisadores mundo afora. Inúmeros pesquisadores internacionais têm usado essas inovações do HCPA para fundamentar os avanços que eles promovem. O Pasteur (Louis Pasteur, cientista francês inventor da vacina contra a raiva) diz que, na ciência, o importante é fazer primeiro ou fazer melhor. Quando há a junção dos dois, temos resultados assim. Essa atividade envolve muita dedicação, mas sobretudo a capacidade de inspirar os mais jovens e apresentar a eles a beleza da ciência de maneira que possam desenvolver o próprio entusiasmo e propagar esse movimento que iniciamos dentro do laboratório. Pesquisas de alto nível são resultado de um esforço coletivo, a capacidade de formar e liderar grupos de pessoas é quase tão importante quanto a capacidade científica.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou, em 2017, que a depressão afeta 322 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, são 11,5 milhões de indivíduos diagnosticados com o distúrbio. Isso reforça a máxima de que essa doença é o chamado “mal do século”?
Sim, já é a segunda causa de dias perdidos de trabalho mundialmente. É uma doença ainda misteriosa que pode acelerar o processo de envelhecimento e favorecer o surgimento de outros males, como o diabetes, o infarto e o acidente vascular cerebral (AVC). Tratar de forma eficaz o quanto antes é a melhor estratégia. A detecção precoce pode se dar inclusive por meio de aplicativos que já desenvolvemos no HCPA. Já conseguimos, estudando a escrita dos diários de Virgínia Woolf, predizer os momentos que antecederam o ato suicida usando padrões de escrita dos atos anteriores ao momento do suicídio. Esse é um exemplo do potencial transformador da tecnologia na área. Bem como tratamentos rápidos, que agem como “quimioterápicos”. Estamos trabalhando nessa frente também, trazendo a tecnologia para ajudar no tratamento à depressão e a evitar o ato de suicídio.

Ainda conforme a OMS, o Brasil registrou mais de 13 mil casos de suicídio em 2016. Com esses resultados de pesquisas e estudos do Laboratório de Psiquiatria Molecular do HCPA, dá para vislumbrar a diminuição dessa taxa?
A ciência atual tem muito a contribuir para a diminuição da epidemia de suicídios que verificamos em crescimento em vários setores do mundo, inclusive no mundo industrializado. As formas que as novas técnicas podem contribuir são através de tratamentos rápidos simplificados e com medicamentos que agem imediatamente na ideação suicida dos pacientes. Há também a necessidade de termos políticas públicas específicas para lidar com o drama da questão do suicídio em todas as idades. Lembrando que os jovens, na adolescência ou no início da idade adulta, e os idosos são os mais vulneráveis a esse tipo de ato. Nesse contexto, o Rio Grande do Sul tem taxa de suicídio mais elevada do que a média nacional (em 2017, ocorreram 1.349 casos no Rio Grande do Sul, segundo a Secretaria de Planejamento e Gestão). No Brasil, existe uma barreira comunicacional com o público jovem, que tem hábitos diferentes e um acesso menos permeável à cultura dos seus pais, o que os torna uma população de especial interesse e preocupação. Há escassez ainda de um treinamento específico dos profissionais de saúde para eles conversarem de forma eficaz sobre situações tabu, como são o suicídio e a depressão, para que haja a redução dos estigmas que rondam as doenças mentais. Precisamos falar sobre esses transtornos de humor, especialmente com os jovens. Não é vergonha sofrer de depressão. É uma doença que afeta uma em cada cinco pessoas. E o suicídio pode ser evitado com diagnóstico e tratamento precoces.

Fale mais sobre os resultados dos estudos do seu grupo no sentido de ajudar no tratamento dessas doenças.
Encontramos uma proteína associada ao rejuvenescimento, e ela se mostrou baixa em quem sofre de depressão e bipolaridade. Descobrimos uma via molecular para tratar esse processo de envelhecimento acelerado. A UFRGS está desenvolvendo um tratamento em parceria com o Instituto Pasteur, da França, há uns quatro anos, para retardar essa mortalidade que é aumentada em duas vezes em pacientes que têm estes transtornos, mas não são tratados. Contudo, é importante ressaltar que, apesar de as químicas do cérebro estarem alteradas, a mortalidade pode ser resgatada e equilibrada novamente. A mensagem que trazemos é que sempre é um bom momento para tratar e prevenir episódios de mania ou depressão.

Quanto tempo foi necessário para amadurecer essa pesquisa?
Esse é um dado importante. A pesquisa foi iniciada em 1997. Para amadurecer uma pesquisa, precisa-se de anos ou décadas, ou seja, é um processo longo. Temos seis professores da UFRGS envolvidos e outros tantos alunos de graduação e pós-graduação. Ao total, são aproximadamente 50 pessoas. E o HCPA criou uma estrutura para dar o apoio necessário. Poucos hospitais universitários do Brasil ofereceriam um laboratório assim para o pesquisador. Aqui, nos preocupamos não só com o atendimento ao paciente, mas em entender a causa de sua doença. Essa visão do hospital, somada com o tripé ensino, pesquisa e extensão, da UFRGS, gera uma sinergia muito grande: um complementa o outro. O fato de a nossa pesquisa ser tão citada tem um motivo: não bastaria ter boas ideias se não tivéssemos essa infraestrutura.

Quadros de depressão e outros males da mente têm afetado inclusive o ambiente acadêmico, com o registro, por exemplo, de casos de suicídios de alunos. O HCPA prevê alguma política de suporte para os pesquisadores?
O caso do HCPA é um bom exemplo de políticas estáveis e sérias de integração ensino, assistência médica e pesquisa. É um ambiente de alto nível intelectual, previsível, com forte intercâmbio com grupos internacionais de excelência. Já o contínuo esforço pela qualidade pode desgastar uma comunidade de alunos, médicos e cientistas. É uma tendência mundial. No HCPA e em demais instituições de ensino médico, já há políticas para apoiar os alunos na difícil, mas fascinante jornada de quebrar barreiras estabelecidas e inovar.

As universidades federais vêm recebendo críticas do governo federal. O ministro da educação, Abraham Weintraub, chegou a afirmar que há plantações de maconha nos laboratórios das instituições. Como o senhor vê esse cenário?
No Brasil, o cientista ainda é muito pouco compreendido. Somos vistos como alguém isolado e, muitas vezes, há uma dificuldade da população em entender que a ciência ajuda a resolver seus problemas. Por exemplo, quando teorizamos sobre o envelhecimento, os tratamentos para a depressão e a bipolaridade começaram a mudar. Gostaria de que houvesse um real reconhecimento da figura do cientista, e, para que isso aconteça, precisamos de políticas públicas estáveis de incentivo à pesquisa e à inovação. Se temos mudanças súbitas de cenário, os estudos e as descobertas não prosperam. O fomento e a estabilidade são fundamentais. Precisamos de um campo estável e previsível para os laboratórios de pesquisa, sem cortes, porque o dano não será para o cientista, mas para as futuras gerações.

Em 2019, o Ministério da Educação suspendeu 8.378 bolsas de pesquisa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Isso pode de algum modo afetar a área da saúde?
O momento é preocupante, pois o setor da pesquisa e da inovação depende de sistemas estáveis com regras claras. Uma linha de pesquisa, para maturar e dar frutos, constitui um trabalho de anos, décadas. Espero que a sociedade acorde a tempo e se coloque ao lado dos países que tomaram as decisões certas, criando políticas de ciência e inovação estáveis e interligadas com a indústria e o setor produtivo.

O senhor estudou em escolas de Ensino Fundamental e Médio públicas de Porto Alegre. E depois cursou Medicina e fez pós-graduação em uma instituição federal, a UFRGS. Como avalia o potencial propulsor do sistema educacional público?
Tenho orgulho de ter sido aluno da rede pública, desse sistema de ensino de altíssima qualidade público e gratuito. Não há dúvidas de que o acesso ao ensino de excelência é uma das políticas mais eficazes para reduzir a desigualdade e dar oportunidade para pessoas que pertencem a diferentes setores da nossa sociedade. É estratégico para o desenvolvimento do país. Considero que nem todo ensino e pesquisa precisam ser realizados em instituições públicas, entretanto, os últimos rankings mostram que as pesquisas de ponta, no Brasil, são feitas por universidades públicas e federais. Precisamos nos orgulhar desses feitos e pesquisas, que são o patrimônio gerado ao longo do tempo pela sociedade brasileira. Procuro dar retorno a esse investimento feito em mim por meio de atendimentos realizados via Sistema Único de Saúde (SUS), do HCPA, mas também ajudando a formar mestres e doutores. Além disso, na medida em que patentes foram geradas com o meu trabalho, e elas são propriedade intelectual da UFRGS, isso assegura não somente o reconhecimento, mas o retorno financeiro para a instituição, no caso de sucesso desses produtos.

A depressão em números
4,4% da população mundial sofre de depressão, estima a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o índice é de 5,8%.
Ainda segundo a OMS, 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano, sendo essa a segunda principal causa de morte na faixa dos 15 aos 29 anos de idade.
A estimativa é de que apenas 10% das pessoas que sofrem com depressão se submetem a tratamento médico especializado.
Por isso, a OMS estima que, neste ano, a depressão se tornará a doença mental mais incapacitante do mundo.

O que é a psiquiatria biológica
As pesquisas pioneiras desenvolvidas pelo grupo coordenado por Flávio Kapczinski são centradas na investigação biológica dos transtornos do humor e na procura por tratamentos para a bipolaridade. O ineditismo no ramo, batizado de psiquiatria biológica, fez com que ajudasse a abrir um campo de estudos, tornando-se referência para milhares de artigos científicos publicados em todo o mundo.

Pode-se afirmar que os estudos realizados no HCPA e na UFRGS estão ajudando a entender melhor as relações entre esses males da mente e as questões físicas do corpo.
O reconhecimento, para Kapczinski – que tem 480 artigos científicos publicados – veio com títulos como o Mogens Schou Award for Education and Advocacy, concedido pela International Society of Bipolar Disorders (ISBD) e considerado o mais importante na área de estudos sobre a doença bipolar.

Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br

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