A morte de um dos pais é um dos eventos mais difíceis que uma criança pode enfrentar. Ela expõe prematuramente à criança a imprevisibilidade da vida e a natureza tênue da existência cotidiana.

Estudos com adultos que apresentavam alguns distúrbios psíquicos e/ou mentais, especialmente depressão, revelam frequentemente lutos mal elaborados vivenciados na infância, sugerindo que tal perda pode contribuir para o agravamento de transtornos psiquiátricos e que esta experiência pode tornar uma pessoa emocionalmente vulnerável para a vida.

No trabalho Katie sofre pressão para conseguir um diálogo mínimo com a paciente que está tratando. Ela cria mecanismos para se aproximar de Lucy: desenhos, leitura, contação de histórias.

Diante do lago no parque Katie verbaliza o desejo de ser um pato e Lucy toca-lhe a mão, ambas permanecem sentadas e caladas. Ao comunicar à Lucy que ela será atendida por outra colega, a menina verbaliza “não, quero ficar com você”.

Lucy estabeleceu um vínculo e não quer ser abandonada pela terapeuta também. E o tratamento segue, ela a ensina a andar de bicicleta e a enfrentar a dor que a perda traz.

A cena em que ocorre a despedida entre a paciente e a terapeuta é terapêutica para ambas. Katie conta que seu pai também morreu quando ela era ainda criança, passando a morar com a tia e os primos.

A tia estava separada, pois fora traída. O filme não narra a convivência na casa da tia, que enfrenta um duplo luto, o da perda da sua única irmã e a separação por traição. Não fica claro, mas a narrativa sugere que a tia é alcoólatra.

Após o diálogo no parque, Katie revisita sua história, assimila sua biografia pessoal, suas dores, não mais negando ou evitando a dor para não sofrer. Decide assumir seus sentimentos e se reaproxima do parceiro.

Leia mais: Luto Antecipatório – o ensaio sobre a morte

Nossas feridas emocionais são por vezes abertas na tenra idade, às vezes causadas por perdas dos genitores. É preciso compreender que perdas fazem parte do processo de viver e elas podem ocorrer em qualquer idade; é da natureza humana perdermos pessoas, objetos, relacionamentos….

Passar a vida sem expressar os sentimentos mais profundos que um processo de luto nos remete pode nos causar sérias dificuldades em estabelecer vínculos mais significativos, pois por medo da perda não nos vinculamos. Sempre corremos o risco de perder quando nos vinculamos a alguém, correr riscos é viver.

 

O luto vivenciado na infância, muitas vezes, deixa cicatrizes emocionais profundas que podem ser experienciada por décadas e pode ter diversas ramificações. Diversas reações relacionadas à perda normalmente serão revitalizadas, revistas e analisadas repetidamente em sucessivos níveis do desenvolvimento humano.

Por isso, ao lidar com crianças que sofreram uma perda significativa, é importante estar ciente da natureza especial do luto infantil. Elas também precisam expressar seus sentimentos e sua angústia interna.

Atenção e uma escuta ativa e afetiva podem ser fatores de proteção importantíssimos para que esta criança não desenvolva sintomas psicopatológicos na vida adulta.

 

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Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Psicologia Hospitalar e Luto, Member of British Psychological Society. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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