Você não aguenta mais ser o que tem sido. E disfarça isso muito bem.

A vida te convida continuamente e de tantos jeitos a ser outra, a recuperar muito do que já se perdeu, reconquistando a auto-estima, o equilíbrio, a serenidade. Você aprendeu muito bem a recusar convites.

Sabemos, não é fácil. Rezar não é o suficiente. Chorar não é o suficiente. Doer não será o suficiente.

Você sabe do que se trata: mudar escolhas, atitudes, a postura, o olhar. A alquimia interior que vivemos a adiar por acreditarmos que é o futuro quem nos reserva algo bom, não o presente. E por não sabermos hoje qual caminho tomar, escolhemos não tomar caminho algum.

Sim, gostaríamos da receita pronta para a cura dos nossos males. Um sonho, um livro, uma cartomante a dar-nos o conselho certo, a orientação precisa que nos liberte das nossas angústias, das mágoas, ansiedades e dos nossos desgastados amores. Gostaríamos da mensagem reveladora, como se ler ou ouvir verdade sobre nós vinda dos outros nos libertasse de nós mesmos.

Uma outra notícia que ainda não sabemos, a chave exata a nos aliviar dos ressentimentos, dos medos e culpas que arrastamos. Queremos saber a direção a seguir que nos alivie. Ansiamos pelo passe de mágica, o comprimido que ao despertarmos amanhã nos faça outros. Inteiros.

E tudo porque desejamos ser outros sem deixarmos de ser quem somos. Desejamos a mudança sem sairmos do lugar, buscamos o novo céu repetindo as mesmas histórias e os mesmos dias nublados.

Queremos que a boa nova seja compatível com tudo aquilo que temos sido, que o sacrifício se estenda até a página dois somente, que o desafio conviva com o falso conforto do cativeiro que enfeitamos com festas e fugas a que chamamos de vida.

Assim, desejamos que o novo se encaixe perfeitamente no velho e que a novidade apareça entre as escolhas que repetimos. Queremos que a nossa independência nos traga sabedoria, e que a sabedoria nos leve à independência. Enquanto isso, esperamos. Que o amanhã se canse tanto quanto a gente e nos mude de direção. E que seja a vida a nos abrir a porta, não a gente mesmo.

A liberdade começa em segurar a chave antes de abri-la.

(Autor: Guilherme Antunes)



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