Relações livres, poliamor, casamento aberto ganham visibilidade com internet, minissérie na tv, sociedade mais aberta a outras formas de amor…

Prefere se mostrar. “Sair do armário”, como diz. Expor seu pensamento que foge do tradicional. Ser o que é, deixar ser fotografado, aparecer aqui na revista, onde quer que for: ele pensa assim, melhor contar para todo mundo, evitar surpresas. Não passar por situações de se interessar pela garota, propor relacionamento sério, mas aberto, sem ciúmes, e levar um não. “Gostava dela, mas me sinto feliz. Não ia dar certo.” Acredita que evoluiu até aí, deixou a sua imagem mais clara, transparente depois de um namoro exclusivo, ele e ela, que achava incompleto. Precisava se libertar, achar outras formas de amor sem ciúmes, de estar bem se a parceira também estivesse com quem quer que fosse. Ficou confuso, recorreu à internet, surgiu à frente a infinidade de textos, discussões sobre a liberdade nos relacionamentos sexuais. Era o que pensava. “Me identifiquei”, diz o músico Érico Temponi.

Havia chegado onde queria. Contou para a mãe, que pensou logo em promiscuidade, pediu para o filho se cuidar neste mundo aberto. “Pode-se ter menos parceiros do que em casamentos e ser infiel.” Mas se houver, prometeu se cuidar. “Ela acha que é uma fase.” Érico Temponi acredita que não, é eterna enquanto durar nessa sua vida descomplicada, do entendimento de que se gosta de jogar tênis com um amigo, de preferir ir ao cinema com outro… por que não ser assim com as namoradas. “Se ela quiser ficar com outra pessoa, vou dar suporte. Se perder o interesse por mim, eu aceito.” Não quer contrato de exclusividade, mas de liberdade. “Você pode ser monogâmico desde que essa decisão seja sua, não uma imposição da sociedade.”

Hoje mais arejada, que dá brechas para Érico Temponi aparecer sem medo, neste tempo de sexualidade em alta, de Carnaval, da exposição do sexo a 3, na minissérie Felizes para Sempre?, de Euclydes Marinho, da rede Globo. Puxa para fora casais de relacionamentos abertos, adeptos do poliamar, da rede de relações livres, do suingue, do que mais surgir nesse mundo de gente com fantasias, desejos, pensamentos tão díspares. “As relações não monogâmicas sempre existiram no Brasil, mas hoje não são só de homens, mas também de mulheres. O que vejo é a mudança de gênero”, diz Antonio Cerdeira Pilão, mestre em antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do grupo de pesquisa Sexualidades e Conjugalidades (não) Monogâmicas do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.

Elas chegaram aos poucos, em grupos coesos, juntos com os homens, se identificaram, depois da liberdade sexual nos anos 1960, da lei do divórcio na década de 70, do medo da aids na de 80, da proliferação de informações pela internet na de 90. “Mais de 30 países criaram redes de poliamoristas, se expandiram em um processo de autonomia que favoreceram a deturpação do termo, conceito poliamor, criado nos Estados Unidos em 1990”, explica Antonio Cerdeira Pilão. Moldou-se ao pensamento das localidades, afeito à cultura, que apareceu no país, na comunidade Poliamor Brasil, do falecido Orkut,se espalhou no Facebook. Há mais de 60 só por aqui, fora os sites que tratam do assunto, da não monogamia ou dela com liberdade sexual, das dúvidas de quem não consegue manter envolvimento afetivo com uma única pessoa.

Pesquisou grupos nacionais e viu que em Belo Horizonte não havia. Criou um, hoje com mais de 400 integrantes. “É espaço para diálogo, de desconstrução do pensamento tradicional porque nem todo mundo tem a capacidade de amar um só. A gente não vem com regras prontas”, diz a jornalista Paula Moraes. Ela, que gosta de 1,2,3, mas não convenceu seus amores a ter relacionamento livre. “Nem quero ter muitos parceiros, mas a liberdade de ser quem sou, me expressar, viver relações mais saudáveis.” Sempre achou natural, é desapegada, vê as mesmas coisas em pessoas diferentes. Tem ciúmes, mas controla para ver a pessoa amada bem. “O que você pensa disso. É estranho?” Segue-se, com as dúvidas tão normais nessa intricada existência.

Por que deveria viver daquele jeito? Seguir as normas escritas, cobradas pela sociedade? Aos 16 anos se apaixonou por um garoto na escola e sua melhor amiga também. “A gente discutiu por que competir, se podia compartilhar”, lembra Babi Bowie, professora de design e pole dance. Resolveram que poderia ser um namoro a 3, o garoto concordou. “Foi a maior confusão, saímos no jornalzinho interno da escola, fomos chamados na diretoria e a psicóloga veio me perguntar se não estava triste ou incomodada com aquela situação.” Não, eles ficaram bem nesse relacionamento dividido por 3 meses. “A partir daí comecei a repensar. Não havia ciúme, existia um sentimento de alegria ao ver meu parceiro feliz com outra pessoa.” Veio para o vocabulário o termo compersão, uma das bases do poliamor, sentimento de ausência ou a superação do ciúme; a aproximação de mais gente que pensava da mesma forma.

“Namorei um menino bissexual por 1 ano e meio e tive uma relação livre”, diz Babi Bowie. Hoje está com o parceiro há 8 anos, mora junto há 2. “Estabelecemos uma relação de confiança. Nunca nos envolvemos afetivamente com outras pessoas, mas também não é uma relação monogâmica.” Hoje se acostumou, perdeu o medo dos julgamentos. “As regras estão aí para serem quebradas.” Desfazer o que é vendido, propagado, mostrar que há outras formas de amor. “É uma luta pela emancipação, liberdade afetiva, ruptura dos paradigmas. Entendo a monogamia como padrão moral, uma estrutura constituída socialmente por meio da história. Fica claro também que não é possível viver em completa liberdade sem reformular essa estrutura.”

Acha que vive, age para uma evolução da sociedade. “A busca pelo par romântico está presente em qualquer cultura ou época histórica. Mas a forma pode mudar de acordo com os costumes, preceitos religiosos ou época. Assim, a forma de casal heterossexual é circunstancial”, afirma Noely Montes Moraes, professora de relações de gênero da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A sociedade cede espaço para as mulheres terem, já convivia com a poligamia masculina, discutirem essas formas de relacionamento. “As pessoas falam sobre sexo, troca de casais, relações abertas, mas mantêm a monogamia. O sexo pode ser dividido, sem envolvimento afetivo”, analisa o psicólogo Diego Henrique Viviani, especialista em psicoterapia sexual e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas do Instituto Paulista de Sexualidade.

Ouviu casais que estabeleciam acordo de transar 1 vez com outros parceiros para não ter relacionamento amoroso. Há medo de perder, de deixar de ser especial, único. “Eu morro de ciúme”, admite a universitária M.B, no anonimato, porque a sua família não sabe do casamento aberto de 2 anos, do namoro de 7, que começou com essa proposta. Ela nem pensava, mas ele queria e resolveu ceder. “A gente não sai à caça, se acontecer…” É só contar para o parceiro. “Estava num show e fiquei com um cara, havia amigo nosso, que desconhecia o tipo de relação, e veio me questionar. Aí tive que explicar, dizer que logo que chegasse em casa, meu marido saberia.”

Antes, tinham mais parceiros, iam às baladas, hoje nem tanto, e segue-se o diálogo: “Há mais de 1 ano que não me relaciono com ninguém”, diz ela. “Como, na Copa você ficou”, questiona o marido. “Foi mesmo.” Acreditam que o casamento está mais maduro, tranquilo, depois da falta de costume dela no início, quando ele beijava todas que via pela frente, de controlar o ciúme. Penoso para M.B.

Lembra que uma menina ligou para ele. “Estava cantando.” Perdeu a paciência, pediu para dar um jeito. “Mulher fantasia sempre, cria expectativas. Homem não tem disso, se falo que sou casada, estou em um relacionamento aberto. Pronto. Elas não, querem envolvimento, ficam apaixonadas.”

Vai pela porta aberta vigilante, de tantas outras pessoas, dos grupos na internet que crescem, aguçam a curiosidade, das viagens, encontros para troca de casais. “Houve crescimento muito grande. No início, fazíamos 1 evento por ano, hoje são 4”, diz Paulo Macedo, dono do Casal First Tour, agência de viagem especializada em suingue. O último foi no final de janeiro em Monte Verde, no Sul de Minas, com 23 casais, após o primeiro cruzeiro liberal no Brasil, que lotou no início do ano passado. Eram 375 casais. “Fazemos encontros em cidades turísticas porque as mulheres são inseguras. Falam que não querem participar, então damos a opção de passear pela cidade. Mas, quando chegam e veem as festas temáticas, são as que mais curtem, se animam.”

Há cruzeiros pelo Caribe, pousadas para este público em Arraial d’Ajuda, na Bahia, e João Pessoa, na Paraíba. “Tem um senhor do Rio de Janeiro, que sempre vai aos encontros, diz que seu melhor amigo hoje é a mulher”, lembra Paulo Macedo. Acontece lá, aqui, em Belo Horizonte, no Swing Club BH, na Pampulha. “Tivemos festa com 425 casais”, conta Raul, como é conhecido. Vê aumentar a procura, desde que abriu a casa, há 12 anos quando ele e a esposa se interessaram pelo assunto e viram que não havia um lugar na capital mineira. “Observo que o perfil hoje dos praticantes é cada vez mais jovem.”

Credita à divulgação, à internet, à abertura da sociedade. “Todo mundo sente atração por outras pessoas, até nas relações monogâmicas, e também amor. Por que não? Ainda não tive, mas acho que deve ser uma experiência legal”, argumenta a universitária L.C. Viveu relacionamento de 2 anos com uma garota, propôs que fosse aberto, ficar com quem quisesse. “Depois disso, vários amigos também começaram a namorar assim. Vou patenteá-lo.” Acho que é mais leve, sempre quis assim, quando viajava e ouviu a música A maçã, de Raul Seixas, tema da maioria dos poliamoristas: Se esse amor ficar entre nós, vai ser tão pobre amor, vai se gastar… Tatuou a letra no corpo, na filosofia da vida, quer ter mais espaço, liberdade para amar quantos quiserem. “Gosto de gente.”

Aparecer, sem medo de preconceito, mostrar a cara, no embalo da minissérie, do filme 50 Tons de Cinza, baseado no livro de E.L.Jomes e dirigido por Sam Taylor-Wood, que chega aos cinemas em fevereiro. “Graças a Deus começam a abrir a discussão porque ainda há repressão sexual, 50% das mulheres brasileiras nunca tiveram orgasmo”, lembra a sexóloga Sônia Eustáquia. Mas acredita que essas formas abertas de amor não são saudáveis. “A pessoa pode ter fantasia. Ok, que fique aí. Mas quando pega o telefone e põe outra pessoa na relação, não é bom.” Acha que é uma involução, volta à época da pré-história. “Você assistiu ao filme A Guerra do Fogo? Eles transavam entre si no meio de todos. Uma mulher de outro grupo, mais evoluído, chega para ajudar a reacender o fogo e se enamora do chefe. Eles vão para uma caverna, porque o amor exige privacidade, afeto. Não só prazer.”

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Sônia Eustáquia
Colunista da Revista Atrevida cerca de 6 anos, tem formação e trabalho em Psicanálise e Terapia Ericsoniana. Pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Psicologia e Psiquiatria da Infância e Adolescência, Neuropsicologia e Teologia. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



1 COMENTÁRIO

  1. Tenho bastante curiosidade quanto a relações abertas, já discuti o tema com alguns amigos e muitos até que admiram tal envolvimento, mas não têm vontade de iniciar algo do tipo. Eu já tenho vontade, mas minha insegurança bate e também o medo do que vão falar, do que vão pensar. Porém com todos esses medos e essas aversões a ideia, pretendo amadurece-lá e bota-lá em prática logo no primeiro relacionamento sério em que eu estiver.

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