Não tem jeito bonito de explicar: eu só percebi que algo estava errado por uma coçada de saco. No começo de setembro de 2014, lia na cama quando uma coceira me fez perceber que meu testículo direito estava liso e duro. Buscar o sintoma no Google devolvia centenas de páginas com um só diagnóstico: câncer. Desesperado, acordei na manhã seguinte e fui para a emergência do Hospital do Câncer. Uma ultrassonografia revelou que uma massa tinha tomado metade do meu testículo. “Pode ser câncer ou pode ser nada. Marca consulta com o urologista”, disse a médica. Dali a cinco dias, descobri que o sobrenome do urologista que trataria meu câncer era Benigno. Cético convicto que sou, ri da ironia. Em um dos pequenos consultórios do hospital, ele explicou – tudo indicava que eu tinha um tumor. Como testículos vêm aos pares, o procedimento-padrão é tirar um logo, antes de confirmar se é câncer. A cirurgia foi marcada para 18 dias adiante, aniversário de minha mulher. O médico tentou me acalmar: “Pode ficar tranquilo. O câncer masculino cujo tratamento mais avançou nas últimas décadas é o de testículo. É o câncer que eu escolheria se tivesse de ter um”. “Quer trocar, então, doutor?”, perguntei. Ele sorriu e continuou. “A taxa de sobrevida é além de 99%.” Eu repetiria esse número nas semanas seguintes, como um mantra.

Minha rotina até a cirurgia se encheu de exames. Eu fazia todos como se não fosse comigo, como se fosse um observador em um cenário a que eu não pertencia. Meu trabalho como jornalista exige esse distanciamento. Até que fui fazer minha primeira tomografia. Zonzo por ter feito um jejum acima do pedido, recebi o apoio de outros pacientes, com cânceres piores que o meu. À minha frente, uma senhora (tumor na bexiga) explicava sobre a melhoria da comida do hospital enquanto dois enfermeiros tentavam inserir a agulha do acesso em suas veias, fragilizadas pela quimioterapia. Ao meu lado, um senhor em uma cadeira de rodas (tumor de fígado) puxou papo e, depois de ouvir sobre minha suspeita, defendeu que câncer era a melhor forma de morrer. “Você tem tempo para resolver tudo.” Aí notei que não era observador, mas parte. Ali, entendi que estava com câncer. E o medo bateu junto.

Nos dias seguintes, eu era todo medo de morrer. Quando ele aparecia, eu repetia 99%, 99%, 99% de chances de cura. Sobra 1%, que é pouco, mas existe. O medo não ia desaparecer (até hoje, não desapareceu), mas aprendi a controlá-lo. Defini duas regras para encarar meu câncer. Primeiro: eu ia vivê-lo sem anestesiar ou dramatizar os sentimentos que ele provoca. Ia ter medo, dor, dúvida e,  esperava, alívio. Segundo: eu choraria, mas não na frente da minha família. Minha mulher e meus pais demonstravam um estado de angústia muito maior que o meu. Mostrar calma, ainda que cheio de dúvidas, era acalmá-los por tabela. Só chorava no banho. Voltei para a terapia da qual havia tido alta cinco meses antes. Rabisquei um testamento do pouco que tenho no mundo.Nunca me perguntei “por que eu?”. “Por que eu?” é um pergunta inútil, já que desengatilha um processo de autocomiseração em que o paciente se vê traído pelo corpo ou por alguma força maior que, acredita, deveria cuidar dele. A incidência do câncer só aumenta: em 2030, serão 21,7 milhões de novos pacientes no mundo, em comparação a 14 milhões em 2012, segundo a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc, na sigla em inglês). Nesse cenário, a pergunta a ser feita é outra: “Por que não eu?”.

A cirurgia para tirar um tumor de testículo se chama orquiectomia (de orkhis, testículo em grego) e é feita, principalmente, na região inguinal (na linha da cueca). O testículo é tirado por um corte entre o pênis e o umbigo, o que dá ao paciente uma cicatriz de cesárea caída para um lado do corpo. A minha durou uma hora, sem sobressaltos. No dia seguinte, já estava em casa. A recuperação deixa o paciente incapaz de deitar, levantar ou andar sozinho. Fiquei entre a cama e o sofá, sempre amparado pelo braço alheio. Li livros, assisti a filmes e fiz terapia por Skype. A grande diversão era tomar sorvete em uma padaria a 200 metros de casa. Com a perna direita incapaz de levantar do chão, o passeio durava quase uma hora. Pelo sexto dia, já conseguia fazer quase tudo sozinho, mas devagar.

A alta veio no susto, tal qual o diagnóstico. Uma semana após a cirurgia, voltei ao hospital para tirar o curativo. Era um procedimento simples, a ser feito na sala das enfermeiras. Para minha surpresa, meu urologista apareceu com papéis na mão e anunciou que eu tinha um câncer de testículo do tipo seminoma, o mais comum. Como ele tinha sido pego bem no começo e não havia metástase, eu não precisaria de quimioterapia ou radioterapia. “Estou te dando alta”, disse e saiu, com a enfermeira logo atrás. Quando levantei da maca para vestir a calça, minha mulher e eu nos abraçamos e, com a cara afundada no meu peito, ela começou a chorar, primeiro de leve, depois aos soluços. De volta à casa, passei o dia deitado no sofá, olhando pela janela em silêncio. E chorando.

Após a alta, o que eu mais queria era voltar à rotina. Na cabeça de muitos, um câncer desengatilha uma mudança radical. Como paciente, você entende que é mais comum mudanças menores, como correções de rota. Eu mudei minha alimentação. Diminuí brutalmente o consumo de açúcar e álcool. Cozinho em casa todos os dias, incluindo o pão do café da manhã. A maior parte das massas e do arroz que como é integral. Quando encontro, consumo frutas e legumes orgânicos. Descobri a dedicação para a academia que sempre lamentei não ter. Malho de quatro a cinco vezes por semana.Um ano depois da cirurgia, perdi 7 quilos de gordura e ganhei 7 quilos de músculo. A vida segue normal, com exceção dos exames trimestrais que faço para ver se meu tumor continua morto. O câncer é uma doença desgraçada por ser traiçoeira.

Desde o diagnóstico, fui transparente sobre meu câncer com amigos e conhecidos. Em meio ao apoio e ao carinho da maioria, houve reações inesperadas. Amigos com quem tive amizades muito próximas por anos se afastaram. Outros, dos quais não esperava nada, ofereceram ajuda. Um colega da faculdade, com quem não falava havia anos, se dispôs a sair do trabalho e vir entregar remédios em casa enquanto me recuperava. O que mais ouvia – e continuo ouvindo – são garantias que o povo tenta dar. Falam “já deu certo”, “já passou”, “não vai ser nada” não só para  acalmar você, mas também para que o papo morra ali. Não é maldade. Duas pessoas que conversam sobre câncer esfregam na cara a própria mortalidade – que a gente reconhece, mas costuma ignorar. Nem todo mundo consegue. Quando precisar falar sobre o câncer, procure ex-pacientes. Como já consideram essa possibilidade da morte, as conversas são brutalmente honestas, sem espaço para o drama. O tom muda do “já passou” para o “você aguenta”.

As garantias são outra manifestação de um dos piores lados do câncer: o silêncio a seu redor. Até hoje, minha avó não gosta de citar a doença – sua geração se acostumou a falar que fulano tinha “aquela doença” ou “o grande C”. É uma mentalidade que continua viva. Na cabeça de uns, o câncer continua a ser encarado como uma falha de caráter, um pecado punido na forma de um tumor entre as tripas. Essa mentalidade enclausurou pacientes no silêncio da vergonha e da culpa. Ouvi relatos de outros homens que, constrangidos pelo mesmo tumor que tive, preferiram se calar. Preferiram a morte, provocada por metástase no cérebro, à revelação da doença. É um problema que atinge a quase todos. Estima-se que um terço da população mundial, em algum momento na vida, enfrentará um câncer. Falar sobre o câncer é uma forma de desmistificá-lo e diminuir esse silêncio. Não é agradável, mas, dado o alto ritmo de crescimento esperado nas próximas décadas, é uma conversa que precisamos ter.

(Autor: Guilherme Felliti)

(Fonte: epoca.globo.com)

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