Ninguém quer falar sobre isso. Mas ela, a morte, faz parte da nossa existência – é, provavelmente, nossa única grande certeza.

Mesmo assim, fugimos dessa conversa a qualquer custo. Precisamos entender por que fazemos isso e perceber que, ao trazê-la para perto, estamos na verdade mergulhando em nós mesmos e na maneira como olhamos para a vida

Se existe algo certo nessa vida é que vamos morrer. Mas, apesar dessa certeza, acho curioso como não dedicamos tempo para, de fato, aproveitar nossos dias de vida.

Estamos sempre disponíveis para passar horas vendo tevê; para atualizar, de maneira frenética, a página do Facebook – e assim saber o que os outros estão fazendo ou pensando; para abrir links com vídeos de gatinhos ligando interruptores de luz; para ler as fofocas das celebridades. Ou, ainda, perdemos nosso precioso tempo alheios à realidade, aos acontecimentos, à vida, e ficamos deitados em um roupão bem confortável.

Pense naquelas pessoas que morreram jovens e de maneira trágica – um adolescente que teve a juventude interrompida pela leucemia, uma talentosa bailarina que morreu em um acidente de carro – e o quanto eles seriam gratos por terem apenas um dia a mais de vida.

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Será que não devemos isso a eles e assim fazer mais pelo simples fato de estarmos vivos?

A questão é que hoje deixamos, facilmente, o tal do carpe diem (aproveite o dia) em segundo plano. Conforme abordo no meu próximo livro Carpe Diem Reclaimed (Carpe Diem Regenerado, em tradução livre), deixamos de nos preocupar com a morte, que era um assunto prevalente na cultura medieval e também na Renascença.

Nessa época, as paredes das igrejas eram cobertas com afrescos de esqueletos dançantes e as pessoas deixavam, sem problemas, crânios humanos na mesa – conhecidos como memento mori, que em latim significa “lembre-se que você deve morrer”.

O acessório servia como um lembrete. Era uma época de pragas terríveis, taxas altíssimas de mortalidade infantil e de violência endêmica. Um período do qual não devemos ter qualquer nostalgia. Mas, ao mesmo tempo e apesar de tantas adversidades, ter a exata noção de que a vida pode ser frágil e breve fazia com que muitas pessoas vivessem de maneira intensa e apaixonante.

Por isso o historiador francês Philippe Ariès, conhecido por desenvolver um brilhante estudo sobre a morte, concluiu: “A verdade é que nenhum homem amou tanto a vida quanto aquele que viveu na Idade Média”.

A era das distrações

A sociedade moderna, em contrapartida, é voltada para nos distrair, o tempo todo, da existência da morte.

Os publicitários criam anúncios em que todos são eternamente jovens. Deixamos os velhos isolados em asilos, fora da nossa visão e dos nossos pensamentos. Morrer em hospitais, cobertos por tubos e fios, fez com que esquecêssemos o antigo costume de falecer em casa – um dos motivos pelos quais as crianças raramente são colocadas diante do tema da finitude.

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A pergunta “você tem medo de morrer?” pouco aparece nos programas de tevê. Sim, eu sei que o tema da morte não está totalmente fora da pauta: o dilema da eutanásia e os cuidados paliativos são trazidos à tona em alguns noticiários e existe uma moda, crescente, de organizar “cafés sobre a morte” em grandes capitais como São Paulo ou Sydney. Nesses lugares, as pessoas conversam sobre a mortalidade e o significado da existência entre uma xícara de café e um pedaço de bolo. Mas, em geral, a morte é atualmente um tabu assim como era o sexo na época vitoriana.

Os jornais estão lotados de suplementos sobre estilo de vida, mas onde estão os suplementos sobre “estilo de morte”?

Em um nível mais sutil, grande parte da nossa vida social pode ser interpretada como um meio elaborado para nos proteger da ansiedade inerente sobre a morte: a forma como muitos de nós procuram desesperadamente uma carreira de sucesso ou fama duradoura; a tendência de acumularmos cada vez mais coisas para termos a sensação de permanência; nosso desejo de ter filhos como uma forma de deixar um legado; a maneira como passamos boa parte do tempo nos ocupando com algo (porque precisamos estar fazendo alguma coisa sempre).

Tudo isso, de alguma forma, são estratégias para não lidar com a realidade de que um dia, mais cedo ou mais tarde, vamos deixar de existir.

Para dançar com a morte

Estudos conduzidos nos Estados Unidos demonstraram que quanto mais elevada a autoestima de uma pessoa, menos ela pensa sobre a morte. Em outras palavras, os esforços para aumentar o senso de valor pessoal servem para nos proteger de nossos medos existenciais.

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Existem também evidências de que quanto mais uma pessoa pensa sobre a morte, maior é sua vontade de ter um filho – provavelmente como uma maneira de transcender a própria mortalidade.

Como o psiquiatra e escritor americano Irvin Yalom escreveu (Irvin é autor, entre outras obras, de Quando Nietzsche Chorou),“o terror da morte é onipresente e de tal magnitude que uma parte considerável de sua energia de vida é consumida na negação da morte”. Ou como o cineasta americano Woody Allen pontuou: “Eu não tenho medo da morte. Só não quero estar lá quando ela acontecer”.

Quando se trata de pensar sobre o próprio fim, boa parte de nós vive em um crepúsculo entre saber e não querer saber.

Como na história antiga da Espada de Dâmocles, a morte paira no ar para nos abater. Dâmocles era um cortesão do tirano Dionísio, que tinha fama de ser um homem muito afortunado. Um dia, Dionísio ofereceu-se para trocar de lugar com Dâmocles por um dia. O objetivo era que outra pessoa. pudesse sentir o que é ter homens e mulheres o bajulando o tempo todo. Mas, para isso, Dâmocles precisaria usar uma espada sobre o pescoço, presa por um fio. Ao ver a espada em cima de sua cabeça, posta de maneira frágil, desistiu da troca. A Espada de Dâmocles simboliza algo que pode nos ser tirado de repente.

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Consideramos, nos dias atuais, que pensar sobre a finitude é demais para a nossa psique suportar. Então abafamos esses pensamentos, nos distraímos com as alegrias e os desafios diários ou buscamos consolo na religião. No entanto, ao fazer isso, nos privamos do nosso elixir existencial: quando encaramos a existência da morte e a certeza de que não somos eternos, valorizamos mais os dias e conseguimos aproveitar a vida em sua plenitude. Isso nos deixa uma tarefa delicada, que é trazer a realidade da morte perto o suficiente para molhar nossos lábios sem queimá-los.

Precisamos ser como a jovem mulher da pintura de Gustav Klimt, Morte e Vida, que está disposta a encarar a morte de frente, com os olhos bem abertos, sem deixar que isso a perturbe. Ela, sozinha, mesmo no meio de outras figuras, tem a coragem de começar uma dança com a morte. Está na hora de também dançarmos com ela pudesse sentir o que é ter homens e mulheres o bajulando o tempo todo.

Leia mais: O que você faria se tivesse mais tempo de vida ?

Mas, para isso, Dâmocles precisaria usar uma espada sobre o pescoço, presa por um fio. Ao ver a espada em cima de sua cabeça, posta de maneira frágil, desistiu da troca. A Espada de Dâmocles simboliza algo que pode nos ser tirado de repente.

Consideramos, nos dias atuais, que pensar sobre a finitude é demais para a nossa psique suportar. Então abafamos esses pensamentos, nos distraímos com as alegrias e os desafios diários ou buscamos consolo na religião. No entanto, ao fazer isso, nos privamos do nosso elixir existencial: quando encaramos a existência da morte e a certeza de que não somos eternos, valorizamos mais os dias e conseguimos aproveitar a vida em sua plenitude.

Isso nos deixa uma tarefa delicada, que é trazer a realidade da morte perto o suficiente para molhar nossos lábios sem queimá-los.

Precisamos ser como a jovem mulher da pintura de Gustav Klimt, Morte e Vida, que está disposta a encarar a morte de frente, com os olhos bem abertos, sem deixar que isso a perturbe. Ela, sozinha, mesmo no meio de outras figuras, tem a coragem de começar uma dança com a morte. Está na hora de também dançarmos com ela

A The School of Life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio.

Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo.

* Este texto foi baseado no tema dopróximo livro de Roman Krznaric – estudioso da cultura e do estilo de vida das pessoa – , que vai tratar sobre a morte, e que deve ser publicado por meio de financiamento coletivo. É um dos fundadores da The School of Life e criou, mais recentemente, o primeiro Museu da Empatia.

(Autora: Paola Viveiros)
(Fonte: vidasimples.uol.com.br )

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