Medir o tempo é a maior, e talvez mais profunda, conversão da realidade em números. E o que é o tempo, senão a própria vida?

Tempo é experiência, interação, a jornada do ser em sua construção. Ao medir o tempo e convertê-lo em números, roubamos sua infinitude e singularidade, assim como os substantivos e os números reduzem o que há no mundo.

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A medida do tempo transforma uma série de momentos únicos em uma porção de segundos, minutos e horas, ignorando a particularidade da experiência subjetiva que esses momentos têm para cada um de nós.

O registro do tempo, através de calendários, começou a ser usado na agricultura para gerenciar o plantio. Enquanto baseados nos ciclos naturais do sol, da lua e das estações, o efeito de seu distanciamento era mínimo, como demonstravam os primeiros agricultores e a forte ligação que ainda mantinham com a natureza.

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Devido ao modo cíclico de mensuração do tempo, esses primeiros calendários não tinham a capacidade de contextualizar o tempo, criar história ou contar os anos da vida de alguém. Porém, com o surgimento do comércio expansionista e do governo hierárquico, logo tornou-se necessário manter registros sobre um longo período. Assim, as pessoas começaram a contar os anos a partir, por exemplo, do começo de uma dinastia, moldando o tempo de forma linear.

A divisão do dia em horas e a invenção da semana de 7 dias apenas reforçaram este afastamento, culminando na substituição de relógios circulares por digitais e, consequentemente, extinguindo os últimos vestígios da ligação entre o tempo medido e os processos cíclicos da natureza.

A simples divisão do dia em horas, outrora suficiente, deixou de atender a indústria, que passou a exigir uma precisão muito maior das atividades humanas. O desenvolvimento dos relógios mecânicos, no fim da Idade Média, preparou o terreno para a Revolução Industrial.

Nas palavras de Lewis Mumford: “O relógio, não a máquina a vapor, é a chave da era industrial.” Quanto mais dividimos e medimos o tempo, primeiro em horas, depois em minutos e segundos, menos parecemos tê-lo. As dinâmicas do relógio invadem e usurpam nossa autonomia sobre a vida, até ficarmos todos “alinhados” num mesmo horário — sincronizados numa mesma mentalidade.

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Um escravo deve ser pontual para seu mestre, um súdito, para seu rei. Hoje, estamos sujeitos aos horários impostos pelas máquinas e seus requisitos: precisão, regularidade e padronização. É agradável pensar que as máquinas nos servem, mas nossa constante corrida pra estarmos “no horário” diz o contrário.

Imersos na medida linear do tempo, é difícil avaliar a audácia de se dividir o dia em unidades padrão criadas pelo homem: horas, minutos e segundos — propositalmente independentes dos processos naturais. A ideia de que todos os segundos têm a mesma duração predeterminada é tão nova quanto o relógio. Até recentemente, não havia “7:13 da manhã”. O relógio traduz momentos divinos em rotinas mundanas. A medida do tempo acelerou profundamente a separação entre homem e natureza. Mumford ainda comenta:

“Por sua própria essência, o relógio dissociou o tempo dos acontecimentos humanos e ajudou a criar esta crença num mundo independente, de sequências matematicamente mensuráveis: o especial mundo da ciência. Há pouco fundamento para essa crença nas experiências humanas habituais: os dias têm duração variável ao longo do ano, e não só a relação entre dia e noite muda constantemente, mas uma ligeira viagem do leste ao oeste já altera o tempo em alguns minutos. Com relação ao próprio organismo humano, o tempo mecânico é ainda mais estranho: a vida humana possui suas próprias regularidades, basta observar que os batimentos do coração ou o ritmo da respiração mudam de hora em hora de acordo com o humor e as atividades realizadas, e [num contexto social] nem medimos um longo período de dias pelo calendário, mas pelos eventos que o ocuparam.”

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Na verdade, o relógio transforma o tempo numa peça padronizada e sobressalente do Mundo-Máquina. O tempo, portanto, só se torna um possível objeto de comércio quando desvalorizado. Caso contrário, quem venderia seus momentos, cada um infinitamente precioso, por um salário? Quem reduziria o tempo, isto é, a própria vida, em “apenas” dinheiro? O ditado, “tempo é dinheiro”, além de cruel, resume a profunda redução do mundo e a escravidão do potencial humano.

Não se admira que os revolucionários de Paris, em 1830, saíram destruindo os relógios da cidade. O propósito fundamental desses objetos não é a medida do tempo, mas a coordenação da atividade humana. Além desse, qualquer propósito é mera ficção, apenas um pretexto: “O tempo não mede nada além de si próprio.” (Thoreau).

A destruição dos relógios representou uma recusa em vender o próprio tempo, de se programar ou moldar a vida de acordo com uma necessidade de especialização em larga escala imposta pela sociedade. Mais ainda, representou uma declaração, “Vou viver minha própria vida!”, resgatando a valorização do “agora”.

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A vida programada e apressada é a vida de um escravo, cuja qual não lhe pertence. Veja se esta simples demonstração de domínio e poder não te parece familiar: “quando eu disser venha, você virá.” — controlar o tempo de alguém é controlar sua vida.

Na sociedade atual, estamos permanentemente ocupados: ocupados demais pra fazer o que queremos; ocupados demais pra apreciar uma refeição; ocupados demais pra observar as nuvens; ocupados demais pra brincar com as crianças; ocupados demais pra gastar mais tempo fazendo qualquer coisa além do necessário. O relógio torna o tempo escasso, e a vida, curta. Daí a nossa obsessão compulsiva diante de tecnologias da sociedade moderna e sua “tríade cool”: velocidade, eficiência e conveniência. Por que diabos procuraríamos chegar mais rápido, fazer mais rápido, ter mais rápido, senão por acreditar que nossos dias (tempo) estão contados?

A ansiedade do homem moderno vem, em grande parte, do sentimento de que não há tempo a perder. Você deve estar sempre fazendo algo de útil. Você precisa fazer com que cada minuto do seu dia seja produtivo. Se, antes de dormir, você não puder dizer que usou cada minuto do seu tempo produtivamente, então parte da sua vida se perdeu, foi simplesmente desperdiçada e nunca mais voltará.

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Afinal, qualquer momento pode, e deve, ser utilizado para exercer mais controle sob o mundo — tudo por uma vida melhor e com mais conforto. Talvez, depois de maximizar a chance de obter todas essas coisas, poderemos gastar algum tempo com lazer, diversão e recreação.

Ora, “gastar algum tempo”? Essa metáfora tem uma conotação financeira, não? Reflita, leitor, pois se tempo é , pobre de nós.

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Bruno Braz
Engenheiro Químico (UFSCar-SP) e graduando em Psicologia (FMU-SP). É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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