A paixão chega de repente. Se instala de forma intensa. Não da tempo de pensar em nada.

É uma sensação de leve embriaguez; perdemos um pouco os sentidos da visão, escuta e fala. Perdemos um pouco o controle da mente.

Só queremos sentir essas borbulhas que parecem vir do coração, passam arrepiando a pele e chegam até os olhos fazendo-os ter um brilho diferente – é o brilho exclusivo dos apaixonados.Tudo é motivo de riso, qualquer hora é hora para um beijo, o cansaço vai embora, as noites viram cúmplices e cada olhar é uma declaração.

Parece que você vai explodir de tanta felicidade, dá vontade até de gritar ao mundo a sorte de encontrar quem te faça flutuar.

Esta fase inicial é a mais leve e deliciosa de um relacionamento, mas, como todos sabem, é uma fase. Todos os estudos confirmam que o tempo máximo para sentir paixão são 2 anos, a média costuma ser por volta dos 7 meses.

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Quando a paixão dá sinais de que está partindo você começa a descobrir que ele(a) não é bem assim do jeito que imaginou.

Se sempre sonhou em ter alguém para viver aventuras, descobre que a pessoa do seu lado é acomodada; você ama dançar e seu(a) parceiro(a) detesta; você quer levar uma vida saudável e ele(a) não está disposto; você adora fazer planos, mas percebe que ele(a) não consegue planejar nem o dia seguinte.

Uau, quanta incompatibilidade! “Como não percebi tudo isso antes?”

Muitos se perguntam ainda, por que destas diferenças estarem pesando agora, se antes não eram importantes.

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É que neste momento, quando a paixão acaba, nos tornamos mais racionais. Se antes estávamos nos guiando quase que exclusivamente pelas nossas emoções, resolvemos “compensar” esta falta de equilíbrio, pensando muito, pensando sobre tudo.

É aí que, ou o relacionamento acaba ou surge o amor. Ao contrário do que muita gente acha, o amor não faz oposição à razão. Eles podem caminhar lado a lado (inclusive, de mãos dadas). O amor só se instala com a nossa permissão.

O amor é bem diferente da paixão, esta sim, arromba a porta.

O amor pede com licença, começa tímido e até calado. Ele é cuidadoso, vai construindo uma nova casa para o casal, tijolo por tijolo. Dá muito trabalho. Você começa a observar bem e percebe que não é a casa dos seus sonhos.

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Como é possível o amor ser um péssimo arquiteto? A cor não é a sua favorita, parece estar meio torta (nossa, que medo de desabar!), a casa poderia ser maior também, a divisão dos cômodos não te agrada…

Você passa a se chatear com o amor. “Poxa, não era para ser tudo perfeito?”

Não, sinto lhe dizer, mas essa história de que só é amor, se corresponder 100% aos seus ideais não existe. O amor real é diferente das suas expectativas e ilusões. Só será amor, por sinal, se você aceitar isso e, mesmo assim, decidir que vale a pena.

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Seu amor irá gostar de te ouvir cantando, ainda que desafinado. Seu amor achará fofo ver você com aqueles pijamas velhos. Seu amor aceitará seu gosto musical, seu gosto por filmes, suas comidas favoritas, ainda que tudo isso seja o oposto das preferências dele. Seu amor pode até te achar chata(o) ás vezes, mas é uma chatice que adora, nem que seja para criticar.

Seu amor pode ser desajeitado, mas com você ele se ajeita. Seu amor pode não concordar com suas ideias, mas ele gosta de te escutar. Seu amor pode morar em outra cidade e ser presente quase que do mesmo jeito.

Se na primeira decepção alguém resolve colocar um ponto final, essa pessoa sequer deu chances para o amor entrar, pois este só se consolida depois que passa por algumas provações. Sim, elas são necessárias.

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Se os dois estiverem dispostos a enfrentar os obstáculos juntos e aceitarem-se com as limitações de cada um, o amor ficará tão à vontade que nem precisará dizer que está ali.

Ao contrário, o amor é silencioso, a paixão sim gosta do barulho e da agitação, o amor gosta da paz.

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Rosa Abaliac
Psicóloga e mestre em Psicologia Social. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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