A palavra amor é, provavelmente, uma das mais comuns no vocabulário das nossas sociedades. Em todo lado, sem nenhuma reflexão sistematizada, dizemos “eu amo X” e/ou “eu não amo Y”. Do dia para noite, tornou-se simples rotular as nossas relações afetivas, principalmente as conjugais, com base neste termo, um conceito que é, deveras, vazio e abstrato.

Vivemos o que Zygmunt Bauman chamou de era do amor líquido, um tipo de apego leviano e instável, um sentimento superficial e condenado à rápida dissolução. A ideia que até o século XX dominou, do casamento como a união sagrada, salvaguarda pelo Senhor, parece assistir o seu fracasso na atualidade e, em posição, instituímos como direito a liberdade de separação.

Na corrida desenfreada rumo ao liberalismo, desfizemo-nos de toda uma tradição, eliminando a obrigação que nos foi imposta pela sociedade de eternizar os matrimónios e elegendo o “amor” como condição basilar para manter um relacionamento. Com este argumento, fizemos de nojentos sapos belos príncipes e de nojentos príncipes belos sapos, na busca desmedida de uma ideia platónica de um tal amor.

Esquecemo-nos, no entanto, de uma dura e cruel realidade: O amor romântico foi uma invenção histórica e necessária, defendida pelas grandes instituições sociais (Estado, Religião e Família), na conjuntura de um projeto falhado de construção de uma sociedade nova, com raízes afetivas mais seguras e relações humanas mais duradoiras.

Tal como a ideia de Deus, o amor não existe como elemento coletivo e concreto, pelo contrário, é uma criação subjetiva e abstrata, em que cada um deposita seu significado particular, resultante da globalização e da influência da cultura ocidental sobre o homem desesperado dos nossos dias.

Todas as juras de amor que fizemos, as cartas de amor que escrevemos e as provas de amor que mostramos nada são senão subterfúgios, na linguagem existencialista, uma tentativa miserável de dar sentido ao absurdo existencial a partir de um elemento exterior a si (o Outro), suavizando o peso de ser o responsável pela tua grande obra-prima, a tua vida.

É o fim do amor romântico e a culpa é nossa. Fomos nós que , ingenuamente, substituímos o interesse pragmático pela ignorante ideia de que uma relação não é movida por interesses. Uma relação deve sim ser movida por interesses, sejam eles quais forem. A nossa carência coletiva, associada a incapacidade de aceitar a realidade bruta e utilitarista do “novo mundo”, não nos deixou perceber que nós estamos num outro paradigma, um momento em que o homem é convidado a reinventar os modelos de vida, seus princípios e suas motivações, tendo em conta toda a conjuntura do mundo contemporâneo.

Hoje, as nossas relações afetivas estão condenadas ao fracasso porque, do alto do nosso idealismo, criámos protótipos e o outro só é aceitado quando se encaixa perfeitamente no modelo por nós idealizado.

Esta perspetiva, excêntrica e narcisista, é um cancro para as nossas relações afetivas e obriga-nos a reinventá-las, submetendo-nos a uma busca ridícula e infinita de relação em relação, na medida em que ninguém se adequa exatamente ao nosso protótipo, simplesmente porque é uma ideia nossa.

O mito grego de hermafrodita, apresentada no “O Banquete”, de Platão, refere que um dia homem e mulher eram um só, um ser bissexual, feliz e completo. Mas, por vontade dos deuses, o ser foi divido em dois, tornando-o um ser incompleto. Por este motivo, escreve-se na obra, o Homem sabe-se um ser incompleto e vive buscando encontrar a sua outra parte, um processo complexo, se pensarmos na imensidão do mundo.

Nota-se, com este mito, que os gregos tinham noção da importância da aceitação da outra pessoa como um elemento subjetivo e singular, sustentando, de certa forma, que a robustez de uma relação reside na aceitação da autonomia do Outro, uma premissa contrária ao conceito do amor romântico atual.

Como pensou Emanuel Levinas, é fácil “amar” quem, como puzzle, se encaixa perfeitamente no teu mundinho, o difícil é aceitar a manifestação do Outro, no seu mundo, com os seus defeitos.

Somos, portanto, convidados a destruir as grandes idealizações românticas. Somos chamados a reinventar o amor, a partir de elemento concreto, a vida possível, os amores possíveis.

 

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Estêvão Azarias Chavisso
Jornalista, da Agência Lusa ( Agência de Notícias de Portugal), delegação de Maputo (Moçambique). “É um menino, igual a tantos, apaixonado pela escrita e cheio de sonhos. Sem grandes pretensões, escrevo o que sinto emotiva e apaixonadamente. A tinta é a dor e a fonte é o coração”. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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