Foi quando o menino avistou o morro. Sabia que precisava seguir. Mas o morro, imponente, enorme, belo e amedrontador, estava ali bem a sua frente, atrapalhando a passagem. Talvez necessário bolar um plano B, descobrir algum atalho para facilitar a chegada. Mas por mais que planejasse trilhas alternativas, o morro continuava atravancando todo o caminho.

Os cálculos lhe pareciam impossíveis. Somente um doido toparia atravessar aquele monte terrível para chegar do outro lado. Passaria fome, frio, adoeceria e, ainda assim, talvez não conseguisse transpor aquela barragem.

Voltar e fazer um novo caminho? Quem sabe um novo destino?

Sim, a probabilidade de tudo dar certo era muito maior. É claro que, nessa hipótese, seria triste. Um triste menino com um sorriso largo na face.

Mas há tantos lugares lindos, tantos rios, tantas estradas, por que perder a chance de matar a sede em outro lago qualquer e correr o risco sério de morrer sedento para todo o sempre?

E continuava parado, anestesiado, refletindo, em frente ao morro.

Sentiu vontade de xingar e esbaforir toda a sua raiva. Afinal, por que raios aquele morro se encontrava exatamente ali, com tantos lugares para ele estar?

Percebeu que de nada adiantaria a blasfêmia. Afinal, o morro não se moveria e ele perderia tempo e suor, lastimando a sua inefável posição.

-Justo comigo, justo comigo, pensava. Por que, meu Deus? Por que?

De repente, o menino começou a escutar os risos e gargalhadas de outros meninos, que brincavam morro afora, cujas vozes chegavam até ele. E, então, começou a devanear:

-Eles sim são felizes, olha só, como riem de tudo. Eles devem estar brincando em uma planície vistosa e, lá, não deve faltar água, nem brinquedos, até o sol deve ser mais brando, mais suave. Por que eles podem e eu não? Afinal, também sou uma criança. Eu odeio esses meninos. Não os suporto. Não consigo mais ouvir suas vozes tagarelando e sorrindo. Vou-me embora daqui o quanto antes. Não suporto viver imaginando a felicidade que poderia ter e que não posso usufruir.

O menino, então, para sempre triste, fez meia volta e decidiu ir embora, procurar outros caminhos. Mas sabe-se que nunca conseguiu esquecer a planície encantada e o morro intransponível. Todo lugar por onde passava ainda escutava os risos e gargalhadas dos bem-aventurados garotos que, por uma razão completamente desconhecida, estavam do outro lado do monte.

Algum tempo passou e outro garoto chegou naquele mesmo ponto, desejando ultrapassar aquele mesmo monte poderoso que se colocava imenso em sua frente.

Esse garoto também teve sentimentos similares aos do menino anterior; sentiu medo, insegurança, percebeu que a rota não era racional, que poderia adoecer e morrer no meio do caminho. Também para piorar a situação, começou a escutar vozes e gargalhadas dos meninos que se encontravam do outro lado do morro, possivelmente em uma bela planície.

Teve ímpetos de invejá-los, mas logo recobrou a razão. Que sentimento mais inútil seria aquele. Tanto quanto esbravejar, invejar também não lhe traria nada de positivo. Pelo contrário, entendeu que esses sentimentos ruins mais lhe aumentariam a distância com o êxito. Serenou o seu coração. Deveria seguir fosse como fosse. Não pensaria nas dificuldades do amanhã, afinal cada coisa tem o seu tempo. E já estava muito difícil ter de tomar a decisão. Deu o primeiro passo. E depois o segundo e o terceiro. Lá pelo meio do caminho não mais se recordava das dificuldades iniciais. A realidade fora muito menos assustadora que o medo acerca do enfrentamento da situação. Ainda assim, o frio era intenso. Talvez congelasse.

Olhou pouco adiante e viu um outro menino, também em circunstância semelhante à sua. Ofereceu-lhe parte de um lanche que se encontrava em sua mochila. O garoto aceitou a gentileza com gratidão, emprestando, em contrapartida, o velho casaco que lhe sobrava dentre os pertences. Caminharam juntos por um tempo, durante o pedregoso percurso, e tornaram-se grandes amigos. Subitamente, sem que percebessem, o caminho se tornou mais leve. Não prestavam tanta atenção às asperezas da estrada. A amizade sincera fez com que achassem graça até das dificuldades. Quando se deram conta, enfim, o morro havia ficado para trás.

Observaram o novo cenário e este, mais belo e ameno, era realmente convidativo. Novas crianças vieram lhes encontrar. Meninos e meninas, felizes e a brincar em uma planície encantada. Foram, então, desafiados para uma pelada. A bola os esperava, louca para quicar no chão macio do campo verde. Aceitaram o convite. Por que não? Assim, logo estavam entre as risadas e as gargalhadas, felizes como pássaros libertos. De vez em quando, um ruído de inveja tentava encontrá-los. Mas estavam tão contentes que nem se davam conta e o ruído, pouco a pouco, se desvanecia, tal qual nuvens que se desintegram.

E o morro… Ah, esse ficou para trás há muito tempo. Mas todos sabiam que logo outras montanhas chegariam.

(Imagem: “Ollyy /Shutterstock.com”)

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Regiane Reis
Mestre em Direito Constitucional. Autora do livro "O empregado portador do vírus HIV/Aids". Criadora do site pausa virtual. "Buscando o autoconhecimento, entendi que precisava escrever sobre temas universais como a vida, o amor e a fé". É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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