Jean Piaget e demais estudiosos do desenvolvimento infantil (e humano), explicita que o ser humano nasce num universo caótico (ouvindo todos os sons ao mesmo tempo), que o universo é organizado através da linguagem, principalmente na relação com a família.

Língua e linguagem se diferem, pois na linguagem há língua somada a expressividade. Esta expressividade ocorre pela emoção no que se é falado, pela forma de expressão do olhar, da respiração e até mesmo, pelo silêncio.

No desenvolvimento infantil, muitas formações pessoais e emocionais são construídas através da relação com o outro através da linguagem, entre eles, nossa forma de falar, nossa auto-estima, nossa imagem corporal, entre outras.

Depois que a criança cresce, através da linguagem, expressa suas hipóteses ao adulto por meio de questionamentos. Nesta fase, muitas vezes os adultos acham muitas dessas teorias infantis, engraçadas, fazendo generalizações, nem sempre adequadas. Nesta fase também, as crianças passam a tecer comentários que misturam a fantasia, o desejo e a realidade. Como percebem que alguns desses comentários “chocam” seus pais mais do que outros, utilizam o assunto que mais chocou para conquistar a atenção deles. Os pais, muitas vezes, enfatizam o assunto especificando as perguntas dentro do mesmo, criando assim um círculo “vicioso” e redundante.

Enquanto adultos, percebemos que perguntas específicas nos trazem um resultado mais eficaz, pois há uma meta a seguir, porém com nossos filhos, muitas vezes, além das perguntas serem genéricas, a resposta não é ouvida, levando a criança a buscar assuntos que sensibilizem, como “o amigo me bateu, não gosto da vovó, não quero ir a escola, etc.”. Quando a pergunta é objetiva e a criança percebe que o pai concentrou-se em sua resposta, aprende-se a conversar e também que a utilidade das perguntas é para ir além da resposta, construindo-se um diálogo.

As crianças perguntam para testar suas hipóteses, mas também perguntam para serem ouvidas. Os pais muitas vezes perguntam para constatar se o filho está confortável diante das suas situações vividas, mas se as perguntas são sempre genéricas, os pais só obterão respostas genéricas também.

Neste sentido, retoma-se o título do texto: Perguntas para quê? Se as perguntas são para saber como seu filho esteve na escola, primeiro é necessário dar um modelo do assunto a ser exposto e esse modelo pode ser dos pais falando de seu dia, contando o que os agradou e o que os desagradou, demonstrando assim que esse assunto é importante. Depois é necessário pensar no que perguntar a seu filho objetivamente. Exemplos: “Qual brinquedo que você mais gostou do parque?”, “Qual amigo não foi à escola hoje?”, “Você gostou mais do suco ou da fruta do lanche de hoje?”, “Que brincadeira você mais gostou no dia?”, “Qual não gostou?”.

Outra questão importante no momento deste diálogo é certificar-se que não há outros estímulos retendo a sua atenção (rádio, TV, celular, etc.), pois se a criança perceber que não está sendo ouvida utilizará alguma estratégia para chamar a atenção do adulto.

O ritmo da fala nos influencia. Crianças que cresceram ouvindo seus responsáveis falarem rapidamente possuem mais facilidade de compreender a língua nesta linguagem. Normalmente a criança percebe os diferentes ritmos e opta por um, inserindo o sotaque local e forma cultural de se falar. A fase da gagueira por volta dos 2 anos, acontece porque a criança está com o raciocínio mais rápido do que o aparelho fonador consegue responder. Progressivamente, se os pais demonstrarem que não é necessário pressa para falar, a fase da gagueira é superada em seis ou oito meses. Se não superada, é necessário a busca de um profissional nesta área.

O ritmo de cada pergunta pode trazer significados diferentes, assim, é necessário clareza na pergunta para evitar que o adulto de seu palpite ou insinue as respostas que gostaria de ouvir, fazendo com que a criança corresponda à expectativa dos pais, omitindo sua opinião e não a considerando importante. Se o adulto não entender o questionamento, é importante devolver a pergunta de forma diferente e também prestar atenção a própria expressão ao ouvir as resposta. Se o adulto ficar impressionado quando lhe é relatado um aspecto ruim, a criança utilizará essa situação nos momentos que deseja mais sua atenção, inclusive utilizando da dramatização, misturada a fantasia.

O livro: Como falar para seus filhos ouvirem e como ouvir para seus filhos falarem, de Adele Faber e Elaine Mazlish (editora Sumus), enfatiza que muitas perguntas bem colocadas, modificam o comportamento da criança sem prejudicar sua auto-estima e sem aquela situação de conflito.

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Rachel Cantelli
Psicóloga. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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