Uma das alegrias da vida adulta é ter seus próprios sapatos de salto. Não que eu seja muito chegada a eles. Prefiro ainda andar por aí com minhas botinas surradas. Mas de vez em quando gosto de brincar de menina elegante e botar meus saltos pretos , não muito altos (não daria conta deles). Meus saltos pretos envernizados bem clássicos com cara de quem diz “Dei certo na vida”.

Quando bem criança não podia ver uma mulher usando saltos. Pedia-os emprestados. Uma vez , quase matei minha mãe de vergonha, quando fiquei pedindo os sapatos da esposa do novelista Silvio de Abreu , que morava no mesmo prédio que a minha família.

Normalmente usava-os da minha mãe. Não só os saltos , mas as bolsas , os óculos escuros , o batom…e maiorzinha punha numa bolsa velha mas distinta , destinada à brincar , um pequeno lápis como se fosse um cigarro e fingia que o guaraná era uísque. Podia me entupir de toxinas sem fazer mal algum.

De uísque eu não gosto. Mas aprecio um vinho. E hoje , posso ir andando até o mercado, com meus saltos pretos não muito altos , meu vestidinho sem costas comprar uma garrafa de vinho branco. Me movimento despreocupadamente. Mulher feita. Apesar do andar naturalmente deselegante agravado pela inabilidade de usar saltos , caminho como a mulher que gostaria de ser. Ou que poderia. Me sinto orgulhosa por poder comprar um vinho de 40 reais. Luxo para alguém que se dedica à profissão mais desimportante da sociedade. Aperto a garrafa do Chardonnay chileno contra o peito ardente , imaginando-o bem gelado , dentro de uma taça sob os olhares mornos e suculentos daquele que amo.

Sim, Chardonnay com provolone fica delicioso e pouco me importa se dizem que harmoniza ou não. Mas Chardonnay com olhar de romance e risada compartilhada com quem nos entende fica bem melhor.

Sim, saio do mercado rumo à rua com um semblante sério. Mas por dentro estou sorrindo. Sorriso de menina travessa. Hoje , posso tomar vinho de verdade. Não preciso fingir que refrigerante é uísque nem pegar os sapatos da minha mãe.

Hoje , não preciso mais escrever numa lousinha , chacoalhando o braço para fazer barulho com as pulseiras maternas. Não preciso mais lecionar para as minhas bonecas enfileiradas no chão. Hoje , posso falar sacudindo a cabeça para agitar meus próprios brincos. Posso escrever numa lousa gigante para alunos de verdade. E hoje que posso, nem escrevo tanto assim… e quando os vejo anotando o que eu digo , sinto um frisson danado. “Nossa! Eles são muito mais legais do que as minhas bonecas!”.

Uma vez, sem querer, com a melhor das boas intenções , destruí uma história em quadrinhos feita por meu irmão. Coloquei um sinal de certo em cada quadro. Não entendi quando ele ficou puto comigo. Ele havia tirado nota máxima pela minha avaliação! Ainda hoje , sinto muito prazer , fazendo sinais de certo nas provas dos alunos. Os sinais de errado saem menores , mais tímidos , quase pedindo desculpas. E quando um estudante olha admirado para a prova e diz que vai mostrar o seu dez para a mãe ficar orgulhosa , eu penso: “Mas é uma prova elaborada por mim. Não é possível que eles estejam a considerando um documento importante?”.

E sobre os homens… as brigas com os meninos hoje em dia são muito mais gostosas. Na infância , a gente brigava e ponto final. Hoje , as brigas terminam com reticências , pontos de exclamação. Ás vezes , com três ou quatro exclamações. Na infância os garotos nos empurram na aula de Educação Física. Na fase adulta, os meninos nos empurram na direção da cama. E não precisa de professora para separar a briga não. A gente se resolve sozinho.

Sim, se engana , se engana muito quem diz que não existem deliciosos prazeres na vida adulta…

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Sílvia Marques
Professora universitária, escritora e estudante de Psicanálise. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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