Mesmo sendo a primavera, em nosso País, uma estação sem uma demarcação tão evidente, ela mexe com os nossos sentimentos. O ar se torna mais perfumado, e nas ruas de inúmeras cidades — inclusive nas de Belo Horizonte — as árvores exibem seus coloridos em suas maravilhosas flores. É difícil encontrar uma rua ou um jardim que não se colora e se perfume na primavera.

O clima ameno nos contagia com pensamentos altruístas. É como se algo bom fosse acontecer… Parece aguçar nossas pulsões positivas, e nossas virtudes também parecem florescer. Assim, toda essa mudança de paisagem externa e interna pode nos convidar a um olhar para a vida, a nossa própria vida, e a das pessoas que nos cercam.

Assim como a natureza se renova e se equilibra depois de tempos mais frios e secos, nossa vida também pode mudar. Assim como as árvores buscam os nutrientes armazenados para fazer novas folhas, podemos buscar, em nosso reservatório interno, potenciais positivos ainda não utilizados a fim de construir novas experiências e buscar novos caminhos.

É comum, nesses tempos, acontecer uma onda de otimismo e uma profusão altruísta para com as pessoas. Parece que se inicia uma predisposição natural de cooperação humana. Ela se difunde ao passar dos meses, culminando, em dezembro, no ápice de movimentos solidários e de troca de presentes bem como numa marca dos vínculos entre amigos e familiares. Trata-se do reflexo de uma complexa demonstração social.

As metáforas e comparações com a natureza me auxiliam nesse momento em que falar de otimismo pode parecer “coisa de autoajuda”. Dizem que um rio, antes de cair num oceano, treme de medo. Ele olha para trás, para toda sua jornada — os cumes, as montanhas, o longo caminho através das florestas e povoados, as secas e as grandes chuvas —, e vê a sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente. O rio tem medo, mas precisa ir, se ariscar e entrar no oceano. Somente quando ele deságua no oceano é que o medo desaparece, pois neste instante o rio descobre que não se trata de desaparecer no mar, mas sim de tornar-se oceano. Por um lado é o desaparecimento; por outro, é renascimento. Assim somos nós. Só podemos ir em frente e arriscar.

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Desanimamos muitas vezes na vida porque alguém faz uma crítica destrutiva e cheia de pessimismo. Mas pior mesmo é quando deixamos de realizar o projeto ou, por causa dessa crítica, deixamos de pelo menos tentar realizá-lo. Creio que o conhecimento, o otimismo e uma boa dose de ousadia sejam os ingredientes necessários para o sucesso em tudo que vamos fazer. Então, o maior desafio é vencer o próprio medo e acreditar mais em nós mesmos.

A condição emocional necessária para isso é estar em dia com a autoestima e não estar sofrendo nenhum conflito maior que traga a depressão ou muita ansiedade. A autoestima é uma condição na subjetividade humana e pode ser desenvolvida através de trabalho psicoterapêutico; os estados depressivos e ansiosos podem exigir maior atenção e ajuda profissional interdisciplinar.

Podemos chamar de potencial de saúde mental a capacidade de lidar com situações de medo, fracasso, abandono e desamparo. Quanto mais rápido a pessoa sair da angústia improdutiva, maior é o seu potencial de saúde mental.

Várias situações do cotidiano podem pôr em risco essa condição: a quebra da onipotência é uma das situações que traz mais impacto a esse potencial de saúde. São acontecimentos que nos são impostos, e não podemos fazer nada para consertar, resolver ou remediar. Por exemplo, a perda ou separação de um ente querido, a perda de ano escolar ou do emprego, entre outras situações que nos deixam com sensação de impotência.

Existem pessoas em estado crônico de baixa autoestima. Nesses casos elas estão numa constante sensação de fragilidade, desamparo e, muitas vezes, profundo sentimento de culpa. Subestimam suas próprias capacidades, fazem péssimas escolhas, vivem em sofrimento, e a insegurança é companhia constante.

Manter a consciência das qualidades e das capacidades e seguir em frente parece ser a dica perfeita. Quem tem uma boa autoestima consegue se automotivar e não precisa de outras pessoas para ser avaliado.

O que vai determinar as reações tão subjetivas das pessoas é a estrutura de personalidade, formada muito cedo, durante o processo de desenvolvimento infantil. De uma forma bem peculiar, sinais dessa estrutura se repetem durante toda a vida, como se fosse um clichê de comportamentos.

Só mesmo as intervenções psicoterapêuticas e a maturidade da pessoa que deseja mudar esse clichê podem interditar o processo de repetição. Nesse momento do ano, entre perfumes e cores, com pensamentos altruístas, otimismo e esperanças, vamos entrar no mais profundo arsenal de nossa autoestima e, imitando o rio, deixar-nos ser oceano.

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Sônia Eustáquia

Colunista da Revista Atrevida cerca de 6 anos, tem formação e trabalho em Psicanálise e Terapia Ericsoniana. Pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Psicologia e Psiquiatria da Infância e Adolescência, Neuropsicologia e Teologia. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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