Tudo aquilo que acontece dentro do nosso organismo não é causa do que acontece fora dele[1]. Com isso, quer se dizer que, mesmo que você tenha agredido alguém, não o fez por causa da raiva. Mesmo que tenha comprado um presente para alguém, não o fez porque sentiu gratidão ou porque a ama. Ao contrário, você sentiu raiva e bateu porque alguém lhe fez algo ruim. Comprou um presente e sente amor e gratidão porque esse alguém lhe fez coisas positivas.

Dessa forma, conseguimos entender que os sentimentos possuem a mesma natureza de atitudes que são vistas por todos (como comprar um presente)[2]. Os dois tipos de comportamento (encoberto – que acontece dentro da pele; e aberto – que acontece em público) precisam ser iniciados fora do organismo e, mais do que isso, sentimentos são subprodutos de contingências de reforçamento cujas quais as pessoas vivenciam¹.

Para um psicólogo e principalmente para um que atue na área clínica, um dos sentimentos que podem aparecer com mais frequência no consultório é a autoestima, principalmente quando está baixa[3]. Segundo Hélio José Guilhardi, por ser um sentimento, ela não nasce com o indivíduo. Como todos os outros sentimentos, seu surgimento se dá por meio de sua relação com o ambiente, especificamente por contingências sociais positivamente reforçadoras que o indivíduo experiencia[4].

O autor, em seu texto, aponta diversas formas pelas quais os pais podem fazer com que o filho desenvolva autoestima. No entanto, por ser um sentimento que é subproduto de contingências de reforçamento sociais, não necessariamente ele se mantenha durante toda a vida do indivíduo, principalmente se os pais não arranjam adequadamente consequências e circunstâncias que produziriam tal sentimento.

Para Guilhardi, “o fundamental para o desenvolvimento da auto-estima é o reconhecimento (…)”[5]. E reconhecer significa exaltar a pessoa que se comporta e não o comportamento em si; é dizer “adorei sua companhia” e não “aprecio o fato de que você tenha me acompanhado até o shopping para que eu não fosse sozinho”.

Receber elogios, ser reconhecida como alguém importante, ser positivamente reforçada meramente por existir fará com que a pessoa aprenda a se amar, independente se outras pessoas a amam ou não, independente se as pessoas estão constantemente aprovando suas atitudes ou não. Ela se ama por si só, não por dependência[4].

Dito isto, o que o presente texto procura indagar é a forma pela qual as redes sociais podem influenciar no aumento ou redução da autoestima de alguém. As redes sociais se caracterizam por estabelecer contingências puramente verbais, ‘likes’ e desenhos de mãos com o polegar para cima ou desenhos de corações só nos são positivamente reforçadores por relações de equivalência estabelecidas em nossa história de vida[6] (polegar pra cima é aprovação; coração é amor; etc).

Por serem verbais, todas as contingências estabelecidas pelas redes sociais são necessariamente arbitrárias: o reforçamento natural de tirar uma foto é ‘congelar um momento’ e não obter um determinado número de curtidas em nossas páginas pessoais. O problema parece surgir quando, em exposição excessiva a essas contingências, as equivalências de estímulos se tornam deficitárias, no sentido de estabelecer relações verbais em que o indivíduo só acredita ser bonito, amado, valorizado e reconhecido pelo número de curtidas e corações que ele recebe.

Quando voltamos ao texto do Guilhardi[4] em que o autor afirma que a melhor comunicação que existe para o estabelecimento da autoestima é destacar a pessoa e não o comportamento e olhamos para as redes sociais e percebemos que as curtidas parecem reforçar a postagem da pessoa e não o comportamento de postar em si temos a guilhotina pronta: só sou reconhecido, amado, possuo autoestima e felicidade se minhas postagens e fotos forem curtidas. E o número de curtidas nas postagens parecem ser proporcionais ao sentimento produzido, afinal, quanto mais curtidas eu tiver, mais admirado eu sou.

A questão que proponho a pensarmos é a seguinte: de que forma essa autoestima é real, no sentido de ser produto natural de uma contingência vivenciada? De que forma a mediação social arbitrária do comportamento verbal estabelecido nas redes sociais, isto é, postar uma foto e alguém dizer ‘curti’ por meio de um clique sobre um desenho de coração fará com que a pessoa se sinta amada, querida e reconhecida genuinamente por ser quem é?

Não proponho uma afirmativa última para tal pergunta, mas creio que a direção de uma possível resposta não seja tão animadora. Uma vez que a autoestima estabelece que a pessoa seja reconhecida como reforçadora e não só seus comportamentos, sermos reconhecidos por nossas fotos e postagens em redes sociais não é o mesmo que sermos reconhecidos por quem somos fora delas.

Por isso, o controle de estímulos pode ser ilusório. Se analisarmos as variáveis relevantes poderíamos concluir que as pessoas realmente reforçam nosso comportamento de postar e não nossa postagem em si. O máximo que poderíamos concluir é que determinados comportamentos verbais (sejam eles escritos como nos textos, sejam eles pictográficos como nas fotos) são selecionados por uma comunidade verbal específica que compõe nossa página pessoal em dadas redes sociais.

Estarmos sensíveis apenas às contingências verbais envolvidas nas redes sociais impede que nós mesmos mantenhamos nossa autoestima. Dessa forma, poderemos nos insensibilizar ante contingências não verbais e, em contrapartida, não conseguirmos mais observar nossos próprios comportamentos e o impacto que eles têm sobre o ambiente que nos cerca e no outro que se relaciona conosco. Infelizmente, poderemos perder a capacidade de nos reconhecer enquanto pessoas valiosas e amadas.

Não se espera que as pessoas vivam apenas em função de redes sociais. Como dito, a preocupação começa pela vivência em excesso desse tipo de contingência social. No entanto, creio que o texto joga luz a um fenômeno importante e atual, principalmente se calcularmos a quantidade de horas que passamos na frente de telas do computador e dos smartphones e a quantidade de horas que passamos na frente de outra pessoa, estabelecendo relações genuínas de amor, confiança e intimidade; estabelecendo relações em que a possibilidade de (auto)reconhecimento e reforçamento por simplesmente existirmos e fazermos bem a nós mesmos e a outrem seja real.

Referências

De Rose, J. C.; Bortoloti, R. (2007) A equivalência de estímulo como modelo do significado. Acta Comportamentalia. v. 15, n. 1, pp. 83-102.

Guilhardi, H. J. (2013) Um pouco mais sobre autoestima. abril de 2013.

Guilhardi, H. J. (2002) Auto-estima, autoconfiança e responsabilidade. In: Maria Zilah Brandão, Fátima C. S. Conte e Solange M. B. Mezzaroba (orgs.). Comportamento humano: tudo (ou quase tudo) que você gostaria de saber para viver melhor. Santo André: ESETec.

Hübner, M. M. C. (2006) Controle de Estímulos e Relações de Equivalência. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. v. VIII, n. 1, pp. 95-102.

Sidman, M. (2000) Equivalence relations and the reinforcement contingency. Journal of The Experimental Analysis of Behavior. v 74, n 1, pp. 127-146.

Sidman, M. (2009) Equivalence relations and Behavior: na introductory Tutorial. The Analysis of Verbal Behavior. v 25, n 1, pp. 5-17.

Skinner, B. F. (1953) Science and Human Behavior. New York: The Free Press.

Skinner, B. F. (1974) About Behaviorism. New York: Vintage Books.

[1] Skinner, B. F. (1974) About Behaviorism. New York: Vintage Books.

[2] Skinner, B. F. (1953) Science and Human Behavior. New York: The Free Press.

[3] Guilhardi, H. J. (2013) Um pouco mais sobre autoestima. abril de 2013.

[4] Guilhardi, H. J. (2002) Auto-estima, autoconfiança e responsabilidade. In: Maria Zilah Brandão, Fátima C. S. Conte e Solange M. B. Mezzaroba (orgs.). Comportamento humano: tudo (ou quase tudo) que você gostaria de saber para viver melhor. Santo André: ESETec.

[5] Guilhardi, H. J. (2002) p. 8, grifo do autor.

[6] Hübner, M. M. C. (2006) Controle de Estímulos e Relações de Equivalência. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. v. VIII, n. 1, pp. 95-102.

Sidman, M. (2000) Equivalence relations and the reinforcement contingency. Journal of The Experimental Analysis of Behavior. v 74, n 1, pp. 127-146.

De Rose, J. C.; Bortoloti, R. (2007) A equivalência de estímulo como modelo do significado. Acta Comportamentalia. v. 15, n. 1, pp. 83-102.

Sidman, M. (2009) Equivalence relations and Behavior: na introductory Tutorial. The Analysis of Verbal Behavior. v 25, n 1, pp. 5-17.

Autor: RENAN MIGUEL ALBANEZI – Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Cesumar (UniCesumar), pós-graduando em Análise do Comportamento e Psicoterapia Cognitivo-Comportamental pelo Núcleo de Educação Continuada do Paraná (NECPAR) e pós-graduando em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP).

Fonte: comportese.com

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