Em tempos de debates políticos acalorados, muita gente já se pegou em conversas que mais parecem monólogos do que diálogos. O assunto mais polêmico do momento só deixa mais evidente o que também é claro em bate-papos triviais: certas pessoas não conseguem ser boas ouvintes, ou seja, só querem falar, sem dar a mesma oportunidade ao outro, ou não prestam atenção ao que lhe dizem — sobretudo se a opinião alheia for contrária às próprias convicções. Além de melhorar os relacionamentos interpessoais, desenvolver a capacidade de escutar e compreender os demais faz bem à saúde, combate o envelhecimento do cérebro e ajuda na prevenção do Alzheimer.

Buscar conviver com pessoas que pensam diferente pode ser bastante desafiador, mas também estimula a reorganização de ideias, de modo a tentar reforçar a argumentação, o que aumenta as chances de ser ouvido. É sabido por estudos científicos que ter grande atividade intelectual é fator protetor para demências. Portanto, há muito mais além de fazer palavras cruzadas — diz o psiquiatra Rodrigo Fonseca Martins Leite, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

Ouvir um amigo que lhe traga informações novas, por exemplo, se você não gosta de futebol mas ele gosta, forma novos circuitos cerebrais que vão prevenir o envelhecimento no futuro — afirma o neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes Pinto, professor livre-docente de neurocirurgia da USP.

Acalmar os ouvidos

De acordo com Fernando Gomes Pinto, trabalhos científicos apontam que de 20% a 30% do discurso humano é uma descrição de percepções e sentimentos próprios. Quando uma pessoa expõe isso para outra, circuitos cerebrais relacionados ao bem-estar provocam a liberação do neurotransmissor dopamina.

Em última análise, falar de suas conquistas é prazeroso. Por isso, seria de bom tom dar oportunidade aos demais de se expressar. Se só uma pessoa fala, é como se ela quisesse ter prazer sozinha — destaca o neurocirurgião.

Para a psicóloga, analista comportamental e coach Thereza Assunção, o comportamento dos maus ouvintes se deve ao excesso de informação circulante no mundo contemporâneo.

Os indivíduos formam valores em cima disso. Logo, transformam-nos em verdade e há necessidade de colocá-los para fora. Todo mundo quer ter vez de se posicionar — ressalta. — As pessoas estão precisando acalmar os ouvidos, assim como a boca nervosa para falar. Hoje, o processo de comunicação está comprometido.

O que fazer

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Saiba mais

Pessoas ansiosas têm maior tendência a se tornarem más ouvintes ou de terem esse comportamento agravado por causa da pressa de fazer tudo.

Saber ouvir evita conflitos desnecessários originados em falhas na comunicação. Por isso, desenvolver essa habilidade beneficia tanto as relações profissionais quanto as pessoais.

Bons ouvintes conseguem descobrir coisas novas com mais facilidade, o que ajuda no aprendizado, e correm menos risco de responder impulsivamente a impasses — ou seja, o controle do comportamento é outra vantagem desse perfil.

Entrevista com Rodrigo Martins Leite, psiquiatra da Universidade de São Paulo

Por que algumas pessoas são más ouvintes?

Ouvir o outro, de fato, não é tarefa tão simples. Temos que nos colocar no lugar da pessoa, não prejulgar e aceitar que os valores e crenças dela podem ser totalmente incompatíveis com os nossos. Alguns indivíduos são mais narcisistas ou imaturos que outros, ou seja, mais voltados para si próprios e vaidosos, o que os faz acreditar que suas opiniões têm mais valor do que as de outros. E poucos são os que possuem paciência e tolerância para ouvir, principalmente se forem queixas ou temas polêmicos, como política.

O quanto não saber ouvir afeta relações interpessoais?

Não ouvir gera, em geral, sensação de solidão e frustração na pessoa que acompanha o mau ouvinte. Quem fala espera despertar alguma reação ou algum reconhecimento no interlocutor. Maus ouvintes não oferecem feedback na comunicação, ou oferecem um retorno negativo, de desvalorização do que foi comunicado.

Como é possível aprender a ouvir e se beneficiar disso?

Estar disposto a ouvir implica curiosidade e exercício intelectual. Conviver com pessoas e se comunicar torna as pessoas mais inteligentes. Ficamos mais hábeis nos relacionamentos e mais humildes também. Ninguém é dono da verdade.

(Autor: Camilla Muniz)
(Fonte: extra.globo.com )

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