Os relacionamentos amorosos são vivência que ocupam lugar de destaque na vida de muitas pessoas. Existe, entretanto, uma construção social em que o amor se torna romântico, e esse tal de romantismo natural, muitas vezes, causa angústia ao invés de aconchego e felicidade.

Há uma ideia de que enamorar-se é algo como um encontro completo de corpo e alma, isso até pode ser poético, mas é preciso pontuar que esse tipo de pensamento exclui do relacionamento humano as limitações entre o Eu e o Outro.

O Outro acaba perdendo sua própria autonomia e desejo e deve viver exclusivamente para o Eu, e o Eu só é vivo porque o Outro vive, com isso há um rompimento de um elemento fundamento de uma relação amorosa saudável: a liberdade em amar.

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Muitos relacionamentos acabam tendo, mesmo que minimamente, algum grau de tais elementos abusivos.

Sabemos que é comum ouvir frases como: “Ele(a) não poderia ter feito isso comigo”; “Ele(a) não pode ir sem minha autorização”. É um pouco mais sério, quando em alguns casos, não há tais colocações em explícito, mas a sutil mensagem acaba sendo a de posse, de objetivação.

Já dizia Rubem Alves (1), “Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas… Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços. O amor só é amor quando é livre”.

O Outro é o outro, tem seus próprios desejos, e isso não deve ser encarado como errado, pelo contrário. Se o tão amado pássaro encantando, que sempre retorna mesmo podendo voar, for aprisionado, mesmo em uma gaiola de ouro; ele parará de cantar, pode até morrer, pois perdeu sua liberdade, perdeu sua vida.

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Nos relacionamentos amorosos narcisistas, em que o Outro é encarado como a extensão do Eu, nunca haverá paz, pois o outro nunca será o Eu, é impossível. O amor não virá a menos que, assim como Narciso, o outro seja seu puro reflexo.

(1) Sugestão para leitura: A menina e o pássaro encantado, Rubem Alves (2003)

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João Paulo Zerbinati
Psicólogo clínico de orientação psicanalítica, atendendo em Itápolis-SP e Ribeirão Preto-SP. Graduado pela PUC-Campinas (2014). Mestrando pela Faculdade de Ciências e Letras, UNESP-Araraquara (2017). Membro do grupo de pesquisa SexualidadeVida USP\CNPq. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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