Não preciso nem dizer que o clima geral na França é sombrio. Encarando novamente o rescaldo de um ataque terrorista, o primeiro-ministro francês Manuel Valls  disse que o país está “em guerra contra o terrorismo, contra o jihadismo, contra o islamismo radical”. Os parisienses estão em choque, ficando em casa e esperando que o pânico e o luto passem. Alguns estão saindo para demonstrar que a vida continua apesar da violência.

Para tentar entender e controlar o medo que muitos estão sentindo, falamos com Hélène L’Heuillet, uma importante filósofa e psicanalista francesa.

Na sua opinião, por que os terroristas atacaram principalmente jovens?
Hélène L’Heuillet: Essa é uma arma típica do medo. Os ataques mais importantes, os que buscam gerar medo, geralmente visam principalmente os jovens. Pense no atentado ao cassino em Argel, por exemplo.

Sendo assim, o 11º arrondissement é um alvo ideal em Paris. É um bairro cheio de jovens, e o Bataclan [a casa de shows atacada pelos terroristas] é um símbolo do distrito. Atacando esse único alvo, você atinge vários objetivos: fere famílias, aniquila o potencial que existe em cada jovem, etc. Além disso, você ataca a noção de balada, um símbolo da suposta decadência ocidental.

Esses terroristas também consideram os jovens ocidentais como os estandartes do pecado moderno.
Sim, e essa denúncia é um dos principais aspectos da ideologia do Estado Islâmico. É essa crítica ao capitalismo que está no centro disso. A organização vilifica o materialismo ocidental, seu suposto hedonismo, etc.

Um hedonismo que o EI liga à idolatria – uma noção que o grupo tem criticado fortemente em suas declarações depois dos ataques.
É preciso entender que o ataque ao show do Eagles of Death Metal não foi por acaso. Essa banda norte-americana representa muito do que o terrorismo odeia. Além disso, a relação entre a banda e seu público é inaceitável para o EI. Lembre quando Osama bin Laden afirmou “Nós amamos a morte, vocês amam a vida”. Isso representava a condenação dele dessa idolatria, a idolatria pela vida.

Medo parece ser uma das chaves para compreender melhor a razão para o ataque do grupo.
Durante as chamadas guerras convencionais, medo é uma consequência inerente do conflito. O objetivo principal da guerra não é gerar medo entre as populações, mas triunfar sobre o inimigo.

Hoje em dia, o medo é a raiz do conflito que está cada vez mais sendo exportado para o nosso território. O Estado Islâmico sabe que não vai reverter o sistema político francês com oito terroristas. Com o 11 de Setembro, os terroristas sabiam que o sistema político norte-americano ia sobreviver aos ataques. Não é importante vencer. É importante assustar.

Como psicanalista, como você aborda as consequências desse medo nos indivíduos?
Pela minha experiência, sei que o medo isola. Essa é uma de suas características, notável entre muitos pacientes que recebi na manhã de sábado. Sua insegurança psicológica era real. Entretanto, isso não é novidade. Guerras sempre isolam as pessoas. O medo nos tranca numa sala, no que está perto, imediatamente visível e sensível. Ver a mobilização da população depois dos ataques de janeiro [ao Charlie Hebdo] nos ajuda a entender por que as pessoas procuram, acima de tudo, sair dessa sensação de isolamento.

Você acha que o medo surge da nossa incompreensão de como os terroristas pensam, o que julgamos como irracional?
A renúncia da vida – uma atitude defendida por esses terroristas – é realmente o oposto do pensamento cultivado no Ocidente. Ao mesmo tempo, não devemos fechar nossos olhos. Um dos grandes medos da nossa sociedade vem da fascinação de parte da nossa juventude pelo EI – uma fascinação que não fica apenas no domínio do irracional.

Esses jovens terroristas – muito jovens, em alguns casos – procuram, acima de tudo, encontrar respostas para suas dúvidas pessoais, dúvidas inerentes da adolescência. Infelizmente, a ideologia que o EI fornece a eles… essa ideologia de destruição é totalitária.

A natureza radical dessa ideologia evita qualquer crítica externa.
Sim, ficamos sem fala depois disso. É suficiente ouvir o que as pessoas falam depois dos ataques: “É horrível”, e assim por diante. É extremamente difícil encontrar palavras adequadas. Grandes ideologias totalitárias sempre engendraram essa sensação de impotência, de extrema inefabilidade.

E quanto ao medo de novos ataques? Isso deve desaparecer em breve?
Por muitos anos, a França não experimentou uma situação assim – provavelmente, desde a Ocupação. Portanto, é legítimo sentir tal medo. Mas, sabe, o estado de guerra não é sinônimo de histeria. O sentimento geralmente se assenta e permite que as pessoas continuem com suas vidas. Isso também foi visto depois dos ataques de janeiro. Os parisienses não vão se enterrar em casa. Vai acontecer a mesma coisa agora.

(Fonte: www.vice.com/pt_br)

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