Quando escutamos o termo histérica, imaginamos as mulheres do século 19 que se debatiam como epiléticas e apresentavam paralisias ou dores físicas homéricas sem um motivo biológico.

Embora ainda reconheçamos como sintoma histérico a transformação de males psicológicos em doenças e dores físicas, hoje sabe-se que a histeria nada tem a ver com mulheres se debatendo ou gritando em público.

A histeria é uma categoria de neurose. Existem três tipos de neurose: a histérica, a obsessiva e a fóbica. Falaremos das outras duas em outra oportunidade.

O que marca a neurose histérica é a negação do próprio desejo, é pedir ao outro o que não se quer e não pedir o que se quer. Soou complicado? Nem tanto. O tempo todo estamos esbarrando com pessoas que dizem querer A, mas quando conseguem A, percebem que querem B ou C.

Vamos a exemplos bem cotidianos? Uma mulher luta bravamente para conquistar um homem e quando finalmente o conquista, se desinteressa. O inverso pode acontecer.

Vamos a outro exemplo? Uma pessoa que estuda anos e anos para exercer uma profissão e busca oportunidades de trabalho na área, mas quando finalmente surge uma vaga, a pessoa perde o interesse ou adoece justamente no dia de assumir o trabalho ou resolve desistir da oportunidade por conta de algum problema familiar ou crise conjugal.

Muitas pessoas reclamam da solidão, mas quando aparece alguém realmente interessado, recuam. Algumas mulheres engravidam quando se decidem pelo divórcio ou ainda pessoas cometem deslizes conjugais justamente quando a relação vai bem. Em resumo: parece haver uma espécie de autosabotagem.

Socialmente falando, imagina-se que uma pessoa que desiste de um relacionamento afetivo muito desejado ou de uma oportunidade de trabalho muito batalhada está com medo de ser feliz. A hipótese é válida. Porém, podemos fazer o raciocínio inverso. Será que a pessoa queria realmente ter aquele relacionamento afetivo? Ou ainda: será que a pessoa não prefere manter o ente amado numa esfera de idealização pois o amor cotidiano é cheio de desencontros e pequenas decepções? Quem nunca pisou feio na bola com o parceiro quando justamente a relação começou a entrar numa fase de amadurecimento?

Será que a pessoa queria realmente aquela oportunidade de trabalho? Ou ainda: será que a pessoa não prefere abrir mão da vaga desejada por receio de fracassar? Quem nunca conheceu alguém que na véspera de uma entrevista de emprego ou na véspera de uma reunião importante de trabalho, não bebeu demais com os amigos e acordou no dia seguinte atrasado e com ressaca? A mulher que engravidou após decidir pelo divórcio, queria realmente se separar? A pessoa que comete um deslize conjugal justamente quando a relação vai bem talvez não suporte a responsabilidade de uma parceria feliz.

A neurose histérica é muito mais comum do que se imagina. O nome parece carregar um peso vexatório, mas muitos sofrem com os impasses de uma histeria e tais pessoas são as mesmas que vemos nas estações de metrô, nos pontos de ônibus, no ambiente de trabalho, nos encontros sociais dos finais de semana, sorrindo na praia nas redes sociais.

A negação do próprio desejo faz com que as pessoas se isolem socialmente ou mantenham relações infelizes ou dediquem grande parte do tempo a reclamar da vida. Quantas pessoas não criticam constantemente a vida que levam, mas quando surge uma oportunidade de mudança, recuam?

A negação do próprio desejo pode gerar distúrbios alimentares, doenças psicossomáticas, incapacidade para lidar com os problemas cotidianos. Por tal motivo, vemos tantos jovens inteligentes fracassando nos estudos. Quem nunca conheceu alguém que iniciou duas ou três faculdades sem concluir nenhuma? Por tal motivo, vemos pessoas biologicamente saudáveis padecendo de males físicos como dores musculares, dores estomacais, problemas dermatológicos como alergias de fundo emocional, doenças como a fibromialgia. Por tal motivo, vemos pessoas bem preparadas intelectualmente andando em círculos na vida profissional ou casais que adotam como dinâmica afetiva uma sequência de rupturas e reconciliações. Quem nunca conheceu um casal que vive se separando e se reconciliando? Ou pessoas que visivelmente desprezam o parceiro, mas mesmo assim permanecem na relação?

Sim, a histeria é muito mais comum do que se imagina, mas nem por isso deixa de causar estragos significativos.

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Sílvia Marques
Profa. doutora , idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU, escritora e psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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