O amor ligado a paz e a serenidade é um ideal aos que desejam uma vida longa a dois, aquele lindo sonho de envelhecer juntos. Essa fantasia de aconchego sem fim pode soar tediosa, não?

O tédio se instala pela falta de novidades na relação, isso é um clichê, contudo muitos vivem a falta de intimidade, principalmente sexual, então se parece mais uma amizade do que um casal, se construindo uma relação infantilizada.

Relacionamentos com essa característica de “tédio” podem remeter a uma tendência em se evitar conflitos, negando que há algo errado ali, então o silêncio se instala e cobra um preço alto, o desejo. Não há vivências como as famosas “discussões de relação”, o conflito é temido o tempo todo, assim como o prazer. O casal não progride, faltam planos a dois, o que vai contra o ideal de crescer juntos, baseado num vinculo de prazer e cumplicidade um do outro. (GREEN, 1988)

Há uma espécie de depressão instalada neste casal, o qual vive um desinvestimento radical, marcando naquele vínculo a falta de componentes afetivos, sejam ligados a dor ou prazer. Os conflitos ali residem, mas adormecidos, o que prejudica a capacidade fértil e criativa da dupla. (GREEN, 1988)

Muitos vendem uma imagem de felicidade, mas a necessidade de afirmação repetitiva do amor parece esconder medos e incertezas que habitam a relação. Retorna então aquela frase clássica de que “impossível ser feliz com alguém se não é feliz sozinho” e ela se justifica. Afinal, antes de estabelecer uma relação com o outro, há que se ter uma relação bem estabelecida consigo mesmo. São muitos os casais com vínculos patológicos e isso se justifica por prováveis problemáticas individuais nas relações mais primitivas, como familiares.

A falta de diálogo nas relações gera dúvidas e medos sobre o outro e não permitem que possam respeitar o tempo do desejo de cada um, de tal forma que a intimidade fique bastante prejudicada. O que poderia ser vivido apenas desencontros e individualidades passam a soar como rejeições.

O amor deve ser uma relação de troca, sendo o casal uma unidade, a qual possui características próprias, regras, acordos e intimidades que só o casal entende. A paixão pode vir a ser amor, mas o amor não deve ser a falta de cumplicidade.

Não é fácil estar em um relacionamento, mas o amor é para ser vivido e valer à pena. Tanto o tédio como o caos instalado não são saudáveis, e construir um relacionamento saudável não é fácil mesmo. Ambos devem encontrar uma medida própria para viver o amor, a paixão, a intimidade e o desejo genuíno em estar naquela relação.

Referências:
GREEN, A. Narcisismo de vida, narcisismo de morte (C. Beliner, Trad.). São Paulo: Escuta, 1988.

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Mariana Pavani
Psicóloga, estudante de Psicanálise. Colunista do site Fãs da Psicanálise.

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