Querida colega Natthalia

Estamos a viver em Portugal uma situação complexa e complicada a vários níveis.

Tivemos o primeiro caso acerca de duas semanas. À data que lhe escrevo já se contam 450, com medidas extraordinárias que seguramente há décadas nunca tinham sido aplicadas.

Estamos em isolamento social, em casa, evitando todo contacto e aglomerados de pessoas.

As empresas, universidades, escolas e alguns serviços públicos estão praticamente fechados, trabalhando a partir de casa (quem o pode fazer).

É importante que não se alarmem as pessoas, mas ao mesmo tempo devemos pedir que se preocupem e tenham cuidado.

O vírus, como se sabe tem uma taxa de mortalidade muito reduzida: cerca de 2%. O problema está na sua transmissão que é muito elevada, tendo um potencial de contagiar grande parte da população rapidamente. E se 2% da população morrer, é de facto uma tragédia.

Esta intensidade tem colocado em risco as unidades de saúde que com o elevado número de casos suspeitos têm ficado sem suporte para todos os doentes. Em Itália essa resposta já não é suficiente para todos, principalmente em equipamentos como ventiladores.

Estamos em isolamento por causa disso, para que a curva da epidemia não seja tão elevada e permita que os casos que vão aparecendo tenham espaço nos serviços de saúde.

Este é o panorama geral, num momento em que há a possibilidade de ser declarado o estado de emergência nos próximos dias, estimando também as autoridades de que este cenário continue a crescer pelo menos durante mais um mês.

No que toca a nós psicólogos e à saúde mental, fazia o apelo aos colegas brasileiros, porque a nossa profissão pode ter um impacto importante nesta pandemia.

Em tempos de crise, as fake news aumentam.

Por cá tivemos um aumento potenciado pelas redes sociais de notícias falsas e escandalosas que obviamente foram partilhadas milhares de vezes.

Isso aumentou o pânico das populações que correram para os supermercados, farmácias e serviços de saúde, bloqueando o acesso a todos.

Essa situação parece estar agora a ficar regularizada, a partir do momento em que as pessoas começaram a partilhar informações de fontes fidedignas, ignorando as restantes.

Por isso no caso da pandemia aumentar, é importante pedir às pessoas para partilharem APENAS informação de fontes oficiais com o objetivo de informar e não de provocar o medo e o pânico.

Se o isolamento acontecer, é importante que os psicólogos brasileiros lancem uma corrente e se coloquem à disposição das pessoas que estão em casa sem poder sair.

O isolamento pode ser muito perturbador e a ansiedade e os sintomas de depressão podem aparecer em força. Mantenham os canais de comunicação abertos (via whatsapp ou facebook) para que quem precisar tenha oportunidade de falar um pouco com um técnico qualificado e não procure ajuda com quem não o é.

Publiquei há uns tempos uma lista de comportamentos que podem promover a saúde mental em situação de isolamento que também pode ser importante partilhar:

– Faça algum tipo de atividade física (dentro de casa, obviamente)

– Mantenha, dentro do possível as rotinas que tinha anteriormente: acorde e faça as refeições sempre à mesma hora. Vista-se como se fosse sair (mas não saia!)

– Ligue aos amigos e familiares por telefone (também aos que tem adiado uma chamada há imenso tempo): tente quebrar o isolamento social por esse canal de comunicação

– Restrinja o acesso às redes sociais a períodos específicos do dia (em horários certos, evitando quebrar essa regra)

– Seja assertivo na comunicação e evite conflitos com os familiares: os momentos de stress e ansiedade e isolamento são mais frequentes: ter presente esse aumento ajuda a preveni-los

– Faça uma agenda diária no dia anterior à noite (que inclua os horários de trabalho se for o caso) mas também momentos de lazer como filmes, leituras ou tarefas domésticas.

Há dois conceitos muito importantes para lidar com esta pandemia: consciência e esperança.

Consciência porque todos temos que ter presente que esta situação é séria e exige medidas especiais que dependem de cada um de nós. Cada pessoa é um potencial veículo transmissor. Assim, o cuidado com a higiene que cada um deve ter pode salvar a vida do outro.

Esperança porque irá com certeza ser uma fase transitória, que passará como todas as outras. Se todos pensarmos assim custará menos.

Temos uma frase que por cá tem sido amplamente divulgada e que deixo para vocês: “Quanto mais depressa nos afastarmos, mais depressa voltaremos a estar juntos.”

Até breve e um abraço,
João

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João Fernando Martins
Psicólogo Clínico e Forense Membro efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses Licenciado em Psicologia, Mestre em Medicina Legal, Dirige atualmente o seu gabinete de psicologia, colaborando também com outras 6 clínicas no Porto. Dedica-se também à formação e ensino, tendo sido recorrentemente convidado como Orador e Palestrante em várias universidades da zona norte de Portugal. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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