Se nós olharmos para trás na história veremos crianças retratadas e vestidas como adultos em miniatura. Com o tempo, a sociedade foi olhando para elas com outros olhos, percebendo sua importância como futuros adultos e se ocupando de estudos sobre sua educação e desenvolvimento.

Durante muito tempo se pensou que pela incapacidade de fala, eram menos humanas e menos sujeitos, se aproximando então a animais. As crianças muitas vezes despertam nos adultos sentimentos ambivalentes e dúvidas: são sabidas demais ou são ingênuas? Quando Freud falou em sexualidade infantil foi um grande alarde, afinal não seriam seres tão puros?

Sabemos que a criança, em geral, tem suas fases de desenvolvimento biológico e psíquico, hoje muito descritos em diversos estudos e livros vendidos. Assim, não são as crianças apenas pequenos futuros adultos, nem seres semelhantes aos animais. São pessoas em desenvolvimento as quais precisam de cuidados, nascem marcadas pela fragilidade e incapacidade em cuidar de si sozinhas. Possuem muitos recursos, físicos, mentais, emocionais, então têm uma tendência ao desenvolvimento e liberdade. Contudo, precisam de auxilio e de um cuidado devoto para que haja um desenvolvimento satisfatório.

No século XXI, as crianças são olhadas com olhares atentos, mães apontadas em suas falhas e vitimas de julgamentos, escolas e berçários cada vez mais frequentados… Tudo isso levou a um olhar mais empático e a um modo de olhar mais atento, seja dos pais ou da sociedade que já internalizou muitos conceitos sobre o mínimo necessário para o desenvolvimento de uma criança, além de leis de proteção criadas.

Atualmente, as famílias são menores, têm menos filhos, pais trabalham mais e há poucas oportunidades de contato entre seus membros, o que gerou novos problemas como a falta se sentimentos de amor, constituição familiar e vivencia do desamparo. A cada dia as crianças se mostram mais “terceirizadas”, ou seja, o cuidado sobre ela é exercido por babás, professores, têm uma agenda lotada de atividades e poucos momentos com os pais. Nestes poucos momentos, os pais costumam encaixar as crianças em tarefas adultas, como visita a shoppings centers, supermercados… Não há tempo para experienciar um vínculo familiar com atividades que as crianças realmente sintam prazer, como visitar parques ou ver animais, afinal a escola já realiza esse tipo de passeio, por que ir com os pais?

Outro ponto a se pensar seria sobre essas empregadas que ficam com essas crianças, as quais deixam seus filhos em mãos de terceiros para serem cuidados, ou seja, toda uma sociedade terceirizando o cuidado dos filhos como algo comum. O tempo todo os pequenos se mostram solitários em seus celulares, TVs e jogos, recebendo uma serie de informações que muitas vezes não tem ainda maturidade para processar. Tudo é muito acessível e aberto, não raro acabam vendo pornografias e sites de nudez. Pais costumam brigar pelo excesso da vida digital, mas também não propõem alternativas mais interessantes. Trazer amigos para brincar junto demanda disponibilidade, sair as ruas é perigoso e uma serie de empecilhos.

Algumas crianças tem uma agenda lotada e tão cheia de tarefas que é preciso se perguntar: Que horas ela brinca? E realmente muitas já falam mais de dois idiomas e sabem muitas coisas, menos ser criança e viver os prazeres dessa fase. Filhos parecem abandonados pelo excesso de preocupação com o futuro dos pais, ou pelo excesso de pessoas que cuidam da criança mecanicamente, sem amor nem empatia.

Os pais querem lhes dar o melhor, proporcionar o que não tiveram e fazê-los usufruir de tudo o que conquistaram, para que quando adultos conquistem ainda mais. Nos deparamos então com uma série de recém-formados e currículos muito bons, mas que logo no inicio já querem um salário que lhes possibilite um retorno a todo o investimento dos pais, o que não sendo possível, gera frustração.

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Mariana Pavani
Psicóloga, estudante de Psicanálise. Colunista do site Fãs da Psicanálise.

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